O barril de petróleo chegou a US$ 111 em 18 de maio de 2026, puxado pelas ameaças do governo Trump ao Irã e pelo bloqueio contínuo do Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo negociado no mundo. Para a indústria química brasileira, a escalada não é apenas um dado externo: é custo direto. O petróleo abastece toda a cadeia petroquímica nacional, da produção de resinas termoplásticas e fertilizantes nitrogenados até insumos para tintas, borrachas, embalagens e produtos farmacêuticos.
Braskem e transformadores no centro da pressão
A Petrobras revisa periodicamente os preços da nafta petroquímica com base na cotação do Brent, e esse mecanismo conecta diretamente o mercado de petróleo ao custo de produção das indústrias brasileiras. A Braskem, maior petroquímica da América Latina, opera unidades em Camaçari (BA), Triunfo (RS), Santo André (SP) e Maceió (AL) e sente o impacto a cada revisão de tabela. Mas o efeito vai além das grandes plantas: centenas de transformadores plásticos, fabricantes de embalagens flexíveis e indústrias de higiene e limpeza espalhadas pelo país dependem das mesmas matérias-primas.
Acima de US$ 100 por barril, as margens da indústria de transformação química historicamente se comprimem. O repasse de custos ao consumidor final esbarra em resistência nos mercados mais competitivos, especialmente num momento em que o IPCA já mostra pressão nos itens de cuidados pessoais, embalagens alimentícias e insumos agrícolas.
Estratégias diante de um cenário sem prazo de encerramento
Sem perspectiva de acordo diplomático entre Washington e Teerã no curto prazo, as empresas químicas brasileiras se veem obrigadas a adotar estratégias de proteção: hedge cambial, renegociação de contratos de fornecimento e, em alguns casos, aceleração de projetos de substituição de matérias-primas. A Braskem já opera com tecnologia proprietária para produção de eteno a partir da cana-de-açúcar, uma alternativa que ganha relevância econômica toda vez que o petróleo sobe de forma sustentada.
O Estreito de Ormuz, que separa o Irã da Península Arábica e conecta o Golfo Pérsico ao Mar da Arábia, é o gargalo mais sensível do mercado global de energia. Qualquer perturbação em seu fluxo se traduz em reação imediata nos preços das commodities energéticas, e o bloqueio atual não dá sinais de resolução rápida. A cotação de US$ 111 registrada em maio é a mais alta desde o ciclo de alta de 2022, quando o conflito na Ucrânia empurrou o Brent para patamares similares e a indústria química brasileira enfrentou um dos seus piores anos em termos de margens operacionais.

