A Confederação Nacional da Indústria (CNI) classificou como “inadequada e inoportuna” a Proposta de Emenda à Constituição que reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas sem corte proporcional de salários, aprovada pela Câmara dos Deputados. Para o setor de vestuário e confecção, um dos mais intensivos em mão de obra da indústria brasileira, com mais de 1,5 milhão de trabalhadores formais empregados diretamente, a medida chega em momento de margens já comprimidas e linhas de produção ajustadas ao limite.
Custo maior sem contrapartida de produtividade
A lógica da CNI é direta: reduzir a jornada sem mexer nos salários equivale a elevar o custo por hora trabalhada. Na prática, as empresas produzem menos nas mesmas folhas de pagamento. Para o vestuário, setor que concorre com importados asiáticos a preços muito mais baixos, qualquer aumento de custo sem ganho de eficiência corrói competitividade. A entidade representa federações industriais de todos os 26 estados e do Distrito Federal e atua como principal interlocutora do setor produtivo junto ao Congresso.
A CNI não defende o congelamento das relações trabalhistas. O argumento é de timing e de processo: antes de aprovar uma mudança dessa magnitude, seria necessário um ciclo tripartite de negociação entre governo, trabalhadores e empregadores, com estudos sobre impactos reais na geração de emprego e na produtividade. A entidade aponta que o país já absorve as mudanças da Reforma Tributária em curso, e acumular transformações estruturais simultâneas cria insegurança jurídica que desestimula novos investimentos.
Próxima parada: Senado
A PEC segue agora para o Senado Federal. A CNI sinalizou que intensificará sua atuação junto aos senadores para barrar o texto ou modificá-lo substancialmente antes de qualquer promulgação. O setor de confecção, pulverizado em micro e pequenas empresas espalhadas por polos como Americana (SP), Cianorte (PR) e Caruaru (PE), tende a sentir o efeito mais rápido do que grandes grupos industriais, porque tem menor capacidade de absorver choques de custo ou de reorganizar turnos de produção.
Com 1,5 milhão de empregos formais diretos, o vestuário responde por parcela relevante da base industrial de trabalho no Brasil. A tramitação no Senado definirá se o texto chega à promulgação na forma aprovada pela Câmara ou se sofre alterações que aliviem parte da pressão sobre o setor produtivo.

