Mais de 200 empresas brasileiras já transferiram ao menos parte de suas operações para o Paraguai desde 2007, atraídas pela Lei de Maquila, que tributa a atividade produtiva em apenas 1% sobre o valor agregado gerado no país vizinho. O movimento abrange setores intensivos em mão de obra, como confecções, calçados, autopeças e beneficiamento de minerais, e tem se intensificado à medida que o chamado “Custo Brasil” permanece sem solução estrutural.
O que torna o modelo maquilador tão competitivo
A legislação paraguaia combina três vantagens difíceis de ignorar: alíquota de 1% sobre o valor agregado, mão de obra mais barata do que a brasileira e energia elétrica a preços muito inferiores aos praticados no Brasil. Essa última vantagem tem origem direta na participação paraguaia na usina de Itaipu, o que coloca o país em posição privilegiada para atrair indústrias eletrointensivas, incluindo segmentos de metalurgia de base e beneficiamento de minerais.
A proximidade geográfica reforça o apelo. Estados como Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo estão logisticamente próximos das zonas maquiladoras paraguaias, o que reduz o impacto da migração sobre cadeias de fornecimento que seguem parcialmente ancoradas no Brasil.
O que isso revela sobre o ambiente industrial brasileiro
A Confederação Nacional da Indústria e entidades setoriais têm reiterado o alerta: sem simplificação fiscal e desoneração da folha de pagamentos, a migração de plantas produtivas tende a crescer. O diferencial tributário entre os dois países não é marginal. Uma empresa que paga 1% de imposto sobre valor agregado no Paraguai enfrenta, no Brasil, uma estrutura que inclui ICMS, PIS, Cofins, contribuições previdenciárias e encargos trabalhistas que podem representar parcela expressiva do custo total de produção.
O impacto não fica restrito à arrecadação. Cada transferência de planta representa também perda de empregos formais em regiões que já convivem com fragilidade no mercado de trabalho industrial. Setores como confecções e calçados, historicamente presentes em municípios de menor porte no Sul e Sudeste, são os mais expostos a esse tipo de relocalização.
Mineração e metalurgia também no radar
Para o setor mineral, o modelo paraguaio é relevante especialmente no beneficiamento de matérias-primas e na metalurgia de base. Operações que consomem volumes expressivos de energia elétrica encontram no Paraguai uma estrutura de custos que o Brasil não consegue oferecer dentro da tributação atual. A reforma tributária em andamento no país ainda não produziu efeitos concretos sobre esses setores, e o cronograma de implementação das novas regras fiscais prevê transições que se estenderão até 2033.
Segundo dados do Conselho Nacional de Maquila do Paraguai, o número de empresas cadastradas no regime cresceu de forma contínua nos últimos cinco anos, com participação brasileira respondendo pela maior fatia entre os países de origem dos investidores estrangeiros no programa.

