Ordos, na Mongólia Interior, foi projetada para 1 milhão de habitantes mas ficou vazia por uma década antes de virar referência global de planejamento urbano acelerado
Nenhuma cidade do mundo moderno foi construída na velocidade que a China impôs a Ordos Kangbashi. Em menos de duas décadas, o governo chinês ergueu avenidas largas, arranha-céus, museus, estádios e sistemas de abastecimento completos em pleno deserto da Mongólia Interior, uma região que antes concentrava apenas pastagens e minas de carvão. O projeto começou em 2004 e, em menos de 10 anos, toda a infraestrutura física estava pronta.
O paradoxo é que a cidade ficou praticamente vazia até meados dos anos 2010 e virou símbolo internacional de desperdício. Jornalistas ocidentais a chamaram de “cidade fantasma”. Mas o que aconteceu depois inverte completamente essa narrativa: Ordos hoje abriga mais de 2 milhões de habitantes, com densidade crescente, economia ativa e índices de desenvolvimento que superam dezenas de cidades americanas construídas ao longo de um século.
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O modelo de urbanização chinesa opera com uma lógica que o planejamento urbano ocidental não consegue replicar: o Estado constrói primeiro e a população vem depois
Nos Estados Unidos e na Europa, cidades crescem organicamente. A demanda por moradia, comércio e serviços puxa a construção de infraestrutura, que por sua vez atrai mais pessoas. É um ciclo lento, frequentemente interrompido por disputas políticas, questões de zoneamento e limitações orçamentárias. Em cidades como Las Vegas, projetos de expansão habitacional levam entre 7 e 15 anos para sair do papel, conforme dados da Urban Land Institute.
A China inverteu essa equação. O governo central define onde uma cidade precisa existir por razões estratégicas, econômicas ou demográficas, e então financia a construção completa antes que qualquer morador chegue. Ordos foi construída assim porque a região produzia 600 milhões de toneladas de carvão por ano e precisava de uma base urbana para absorver a riqueza gerada e redistribuir população das áreas rurais vizinhas.
Esse modelo exige controle orçamentário, capacidade de endividamento público e ausência de oposição política local, três condições que democracias liberais dificilmente combinam ao mesmo tempo. Por isso, quando os americanos tentaram algo parecido em projetos como a revitalização de Detroit ou os planos de expansão de Phoenix, o resultado foi fragmentado, lento e muito mais caro por habitante atendido.
A velocidade de execução das obras chinesas não é milagre de engenharia, mas resultado de cadeias industriais integradas que nenhum outro país montou na mesma escala
Construir uma cidade em 10 anos requer mais do que vontade política. Requer que os materiais de construção, os equipamentos, a mão de obra especializada e a logística de transporte estejam disponíveis simultaneamente, em escala e com custo controlado. A China montou esse sistema ao longo de 30 anos de industrialização acelerada.
O país produz hoje 57% do cimento mundial, segundo dados da Associação Global de Cimento. Produz também mais de 50% do aço estrutural consumido no planeta, conforme a World Steel Association. Com esses dois insumos dominados internamente, o custo de construção civil na China é, em média, 40% menor do que em obras equivalentes nos Estados Unidos, mesmo considerando o câmbio ajustado pela paridade de poder de compra.
Além disso, as construtoras estatais chinesas operam com equipes de até 10 mil trabalhadores por canteiro, com turnos de 24 horas e cronogramas integrados por software de gestão de obras que permitem ajustes em tempo real. Esse modelo industrial é o que viabilizou construções como o aeroporto de Daxing, em Pequim, com 700 mil metros quadrados erguidos em menos de 4 anos.
O modelo também tem rachaduras estruturais: a crise da Evergrande expôs que construir cidades sem demanda real gera bolhas imobiliárias com consequências para o sistema financeiro inteiro
Em 2021, a Evergrande, segunda maior incorporadora da China, declarou inadimplência sobre uma dívida de 300 bilhões de dólares, o maior calote imobiliário da história do país. O colapso revelou que parte significativa das cidades planejadas pelo governo havia sido financiada por incorporadoras privadas que venderam apartamentos na planta para financiar a construção de cidades que ainda não tinham demanda real.
Ordos sobreviveu porque era um projeto majoritariamente estatal. Mas dezenas de projetos menores, em províncias menos ricas, repetiram o erro de construir sem população e ficaram presos no vazio. Segundo o think tank norte-americano Rhodium Group, há atualmente entre 60 e 80 milhões de apartamentos desocupados na China, número suficiente para abrigar toda a população da França duas vezes.
A lógica que sustenta esse modelo de crescimento acelerado tem limites físicos e financeiros que o canal José Kobori descreve como insustentáveis no longo prazo para qualquer economia
O debate sobre os limites do crescimento orientado pelo Estado não é novo, mas ganhou novos dados com a crise imobiliária chinesa. O economista José Kobori aponta que economias que crescem via construção maciça de ativos físicos enfrentam um ponto de inflexão quando a capacidade de endividamento esgota a capacidade produtiva real. Em outras palavras: construir mais do que a demanda absorve gera crescimento no curto prazo e contração no longo.
No caso da China, o PIB cresceu a uma média de 9,5% ao ano entre 1980 e 2010, segundo o Banco Mundial, puxado em grande parte pelo setor de construção. Mas entre 2021 e 2024, o setor imobiliário passou a responder por 25% do PIB ao mesmo tempo em que registrava as maiores taxas de inadimplência da história moderna do país. A contradição é real: o mesmo motor que construiu Ordos também acumulou os riscos que quase derrubaram o sistema financeiro.
O Brasil segue um caminho diferente e muito mais lento, mas o déficit habitacional de 8 milhões de unidades mostra que a ausência de capacidade industrial integrada tem um custo concreto
O Brasil tem 8 milhões de unidades habitacionais em déficit, conforme a Fundação João Pinheiro em seu relatório de 2023. Esse número cresce a cada ano porque a velocidade de construção de novas unidades não acompanha a formação de novas famílias. O programa Minha Casa Minha Vida, mesmo após sua retomada em 2023, opera com uma capacidade de entrega de 500 mil unidades por ano, ritmo insuficiente para zerar o déficit em menos de 20 anos.
A diferença em relação à China não é só de vontade política. É de capacidade industrial. O Brasil importa grande parte dos equipamentos de construção pesada, tem uma cadeia de cimento fragmentada em produtores regionais e não possui construtoras estatais com escala para operar em múltiplos estados simultaneamente. Enquanto a China ergueu Ordos em 10 anos, o Brasil levou 14 anos para concluir a linha 4 do metrô de São Paulo, com um trecho de 12,8 quilômetros.
O que Ordos prova, acima de tudo, é que velocidade de urbanização depende de capacidade industrial prévia, e países que não investiram nessa base enfrentam décadas de atraso para recuperar o tempo perdido
A história de Ordos não é apenas sobre uma cidade que virou e depois não virou fantasma. É sobre o que acontece quando um país decide sistematicamente investir em infraestrutura industrial por 30 anos antes de precisar dela. A China construiu usinas de cimento, siderúrgicas, fábricas de equipamentos de construção e sistemas de logística ferroviária ao longo das décadas de 1980 e 1990. Quando chegou a hora de construir cidades inteiras, os insumos já estavam disponíveis.
Países que não fizeram esse caminho industrial prévio não conseguem replicar a velocidade chinesa simplesmente porque não têm a base produtiva para isso. A velocidade de construção de Ordos é o resultado visível de décadas de investimento invisível em capacidade fabril. Conforme o Banco Asiático de Desenvolvimento, cada dólar investido em infraestrutura industrial gera entre 1,5 e 2,7 dólares em capacidade produtiva futura, dependendo do nível de integração da cadeia.
A cidade que o mundo chamou de fantasma em 2010 tem hoje mais de 2 milhões de habitantes, shoppings lotados, universidades em operação e uma taxa de crescimento populacional acima da média nacional chinesa. Esse é o dado que fecha o ciclo.
A China conseguiu fazer em 20 anos o que o Brasil ainda não conseguiu planejar para os próximos 40: construir cidades completas com velocidade industrial real. Você acredita que o Brasil tem condições de montar uma cadeia produtiva da construção civil que permita enfrentar o déficit habitacional com essa escala e velocidade? Deixe sua opinião nos comentários.

