A China opera hoje o maior guindaste do mundo, capaz de içar cargas de até 15 mil toneladas a alturas que nenhuma máquina anterior conseguia alcançar
Poucos projetos de engenharia moderna conseguem parar quem passa por eles. O SSCV Sleipnir ficou famoso por isso durante anos, mas a China acaba de redefinir o que significa “maior guindaste do mundo” com uma máquina projetada especificamente para instalar turbinas eólicas offshore em escala nunca vista. A estrutura não é apenas grande: ela é funcionalmente diferente de tudo que existia antes.
O equipamento consegue içar cargas de até 15 mil toneladas e posicionar componentes a mais de 150 metros acima da linha d’água, o que torna viável a instalação de turbinas da nova geração, que cresceram tanto em tamanho que os guindastes anteriores simplesmente não chegam ao topo das torres. Esse salto não é incremental. É a diferença entre instalar e não instalar.
As turbinas eólicas offshore modernas ultrapassaram 16 MW de potência unitária e seus componentes chegam a pesar mais de 1.200 toneladas cada um, exigindo equipamentos completamente novos
O problema que esse guindaste resolve é concreto e crescente. Nas últimas duas décadas, as turbinas eólicas offshore aumentaram de potência de forma acelerada: saíram de 2 MW por unidade no início dos anos 2000 para modelos de 16 MW e 18 MW que a China e a Europa já estão instalando comercialmente. Cada salto de potência trouxe naceles maiores, pás mais longas e torres mais altas.
Uma nacele de turbina de 16 MW pode pesar entre 600 e 1.200 toneladas dependendo do fabricante. As pás, individualmente, chegam a 120 metros de comprimento. Içar esses componentes exige não apenas capacidade de carga, mas precisão milimétrica no posicionamento, porque um desalinhamento de poucos centímetros durante a instalação pode comprometer o eixo principal da turbina inteira.
Os guindastes flutuantes convencionais, projetados entre os anos 1980 e 2000, foram construídos para o setor de petróleo e gás. Eles levantam pesado, mas não chegam a 150 metros de altura com estabilidade suficiente. A solução chinesa foi construir um equipamento do zero com esse único propósito: instalar a próxima geração de turbinas em alto mar.
A China instalou mais capacidade eólica offshore em 2023 do que todos os outros países do mundo somados, o que explica por que o investimento em guindastes especializados faz sentido econômico
Segundo a Global Wind Energy Council, a China instalou 6,3 GW de capacidade eólica offshore apenas em 2023, enquanto o segundo colocado, o Reino Unido, registrou menos de 1 GW no mesmo período. Esse volume de instalação cria uma demanda por equipamentos logísticos que nenhum outro mercado nacional justificaria por conta própria.
O raciocínio é direto: quando você precisa instalar centenas de turbinas por ano, o custo de desenvolver e construir um guindaste especializado de vários bilhões de yuans se paga. Quando você instala dezenas, o custo de capital não fecha. A escala chinesa é o que torna esse investimento racional, não apenas a ambição tecnológica.
O país opera hoje mais de 30 embarcações especializadas para instalação offshore e está comissionando novas unidades. A corrida não é apenas por energia renovável. É por controle das cadeias de fornecimento que vão dominar o setor nas próximas duas décadas, incluindo os próprios equipamentos de instalação.
A operação de um guindaste desse porte exige planejamento de meses, janelas meteorológicas precisas e equipes de até 400 pessoas a bordo trabalhando em turnos contínuos
Içar uma nacele de 16 MW não começa quando o cabo se tensiona. Começa meses antes, com análise de correntes marítimas, previsão meteorológica e planejamento estrutural do posicionamento da embarcação. O guindaste precisa estar estabilizado com ancoragem dinâmica, porque qualquer oscilação acima de parâmetros rígidos durante o içamento pode colocar a operação inteira em risco.
A embarcação que opera o maior guindaste chinês tem capacidade para 400 tripulantes, com turnos de trabalho que não param durante as janelas meteorológicas favoráveis. Uma instalação completa de uma turbina offshore, do içamento da base submersa até o encaixe da última pá, pode levar entre 3 e 7 dias dependendo das condições do mar.
A Bagger 293, a maior escavadeira do mundo com 96 metros de altura e 14 mil toneladas, ilustra como máquinas de escala extrema sempre foram viabilizadas por demandas industriais específicas e não por demonstração tecnológica
A Bagger 293 é outro exemplo dessa lógica. Com mais de 96 metros de altura e 14 mil toneladas de peso operacional, ela foi construída pela empresa alemã TAKRAF para a mineração de lignita na Alemanha e permanece até hoje como a maior máquina móvel já construída pela humanidade, segundo o Guinness World Records. Ela existe porque a escala da mineração de carvão alemã, nas décadas de 1980 e 1990, justificava uma máquina que nenhum outro contexto tornaria viável.
O paralelo com o guindaste chinês é direto: ambas as máquinas são respostas industriais a problemas de escala, não projetos criados para impressionar. A Bagger 293 escava até 240 mil metros cúbicos de terra por dia, o equivalente a escavar um campo de futebol a 30 metros de profundidade em 24 horas. O guindaste chinês instala turbinas que sozinhas geram energia suficiente para abastecer 20 mil residências por ano.
O Brasil possui mais de 10 GW de capacidade eólica offshore mapeada no litoral nordestino, mas ainda depende de embarcações estrangeiras para qualquer operação offshore de grande porte
O contexto brasileiro torna essa discussão menos abstrata do que parece. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética, o Brasil tem potencial mapeado de mais de 700 GW em eólica offshore, com concentração expressiva no litoral do Ceará, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul. Projetos como o do Complexo Eólico Offshore do Ceará já avançaram para fase de licenciamento ambiental.
O problema é que o Brasil não possui embarcações especializadas para instalação de turbinas offshore em escala comercial. Qualquer projeto de médio e grande porte vai depender de guindastes flutuantes contratados no mercado internacional, majoritariamente de empresas europeias e, cada vez mais, chinesas. Esse custo de frete e mobilização encarece a instalação e afeta diretamente a viabilidade dos projetos.
O setor naval brasileiro, que chegou a ter uma das maiores carteiras de encomendas do mundo durante o ciclo do pré-sal, perdeu capacidade produtiva relevante depois de 2015. Reconstruir essa base para atender à demanda de offshore renovável é uma equação que o mercado ainda não resolveu.
A velocidade com que a China está expandindo sua frota de equipamentos de instalação offshore sinaliza que o custo de instalação de turbinas deve cair substancialmente até 2030
Quando mais embarcações especializadas entram em operação, o custo diário de afretamento cai. A China está comissionando novas embarcações de instalação offshore a um ritmo que nenhum estaleiro europeu consegue acompanhar. Segundo a BloombergNEF, o custo de instalação de eólica offshore deve recuar entre 20% e 35% até o final desta década, puxado principalmente pela disponibilidade crescente de equipamentos especializados e pelo aumento de escala das turbinas instaladas.
Turbinas maiores significam menos unidades para instalar para atingir a mesma potência total. Menos unidades significam menos operações de içamento, menos janelas meteorológicas necessárias, menos dias de embarcação. A matemática de uma turbina de 16 MW versus oito turbinas de 2 MW é brutal em termos de custo logístico, e é exatamente esse raciocínio que justifica construir guindastes maiores.
O maior guindaste do mundo não é um troféu. É uma resposta a uma conta que o setor fez e decidiu que valia a pena pagar.
Com o Brasil mapeando centenas de gigawatts em potencial eólico offshore mas sem frota própria para instalá-los, você acredita que o país conseguirá desenvolver capacidade logística nacional antes de ficar dependente de contratos com empresas chinesas e europeias? Deixe sua opinião nos comentários.

