Hinkley Point C já custou 57 bilhões de dólares e ainda não gerou um único watt de eletricidade para a rede britânica

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A usina nuclear britânica Hinkley Point C acumula atrasos de anos e um orçamento que saltou de 18 para mais de 57 bilhões de dólares, tornando-se o projeto de construção mais caro da Europa

Quando a EDF Energy anunciou, em 2016, o início das obras da usina nuclear Hinkley Point C, no condado de Somerset, a promessa era de dois reatores com capacidade combinada de 3,2 gigawatts operando até 2025. Hoje, a data de conclusão mais otimista aponta para 2029, e nenhum analista no setor aposta nesse prazo com convicção.

O orçamento original era de 18 bilhões de libras. O número atual ultrapassa 46 bilhões de libras, o equivalente a mais de 57 bilhões de dólares, segundo dados divulgados pela própria EDF Energy e amplamente confirmados pelo canal The B1M em análise com quase 3 milhões de visualizações no YouTube. Para colocar isso em perspectiva: o projeto inteiro custa mais do que o PIB anual de países como Paraguai ou Bolívia.

O design EPR escolhido para Hinkley Point C já havia falhado nos canteiros da Finlândia e da França antes mesmo de a primeira pedra ser lançada em Somerset

O reator selecionado para Hinkley Point C é o EPR, sigla para European Pressurized Reactor, desenvolvido pela Framatome com participação da Siemens nos anos 1990. O design prometia mais segurança e maior eficiência do que os modelos anteriores. O problema é que a primeira experiência real de construção de um EPR, em Olkiluoto, na Finlândia, começou em 2005 com previsão de conclusão para 2009 e só foi conectada à rede em 2023, catorze anos atrasada.

Em Flamanville, no norte da França, o segundo EPR do mundo seguiu trajetória semelhante: iniciado em 2007 com entrega prevista para 2012, só gerou eletricidade comercial em 2024. Os dois casos já forneciam um mapa detalhado dos riscos antes de Hinkley Point C sair do papel. Ainda assim, o governo britânico e a EDF seguiram em frente com o mesmo modelo, sem ajustes substanciais no cronograma ou nas estimativas de custo.

A complexidade estrutural do canteiro em Somerset exige mais de 6 milhões de metros cúbicos de terra escavada e uma força de trabalho que chegou a 12 mil trabalhadores simultâneos no pico das obras

O canteiro de Hinkley Point C ocupa uma área equivalente a 180 campos de futebol na costa do canal de Bristol. A escavação necessária para as fundações dos dois reatores moveu mais de 6 milhões de metros cúbicos de material, conforme documentado pela EDF Energy em relatórios de progresso publicados entre 2020 e 2023. Só a estrutura de contenção de cada reator exige concreto suficiente para preencher 90 piscinas olímpicas.

No pico das obras, o canteiro empregou simultaneamente 12 mil trabalhadores de diversas especialidades, desde soldadores certificados para trabalho em ambiente nuclear até engenheiros civis especializados em estruturas de contenção. A logística de abastecimento criou pressão sobre estradas e comunidades locais a ponto de o governo britânico financiar melhorias viárias na região como condição da aprovação do projeto.

A soldagem das estruturas nucleares dentro das cúpulas de contenção concentra os maiores atrasos técnicos e exige retrabalho em proporção muito acima do estimado originalmente

Dentro das cúpulas de contenção de um reator EPR, cada solda precisa passar por testes não destrutivos que incluem radiografia industrial, ultrassom e inspeção visual detalhada. A taxa de rejeição de soldas em Hinkley Point C ficou acima do esperado em diversas fases, segundo relatos da Nuclear Industry Association britânica, forçando desmontagens parciais e retrabalho em áreas de acesso extremamente restrito.

Esse tipo de problema não é exclusivo da Grã-Bretanha. Em Flamanville, a autoridade nuclear francesa ASN identificou soldas com defeito nos circuitos de vapor secundário e exigiu substituição de componentes já instalados. O custo desse retrabalho, somado às penalidades contratuais, chegou a bilhões de euros só naquela unidade. Em Hinkley Point C, o histórico francês deveria ter calibrado melhor as reservas de contingência desde o início.

O modelo de financiamento baseado no “contrato por diferença” garante ao consórcio construtor um preço fixo de 92 libras por megawatt-hora corrigido pela inflação, o que pode custar ao consumidor britânico dezenas de bilhões a mais nas próximas décadas

O governo britânico firmou com a EDF um mecanismo chamado Contrato por Diferença, que garante ao consórcio um preço mínimo de 92,50 libras por megawatt-hora a valores de 2012, corrigidos pelo índice de inflação ao longo dos 35 anos de operação contratada. Quando os preços de mercado ficam abaixo desse valor, a diferença é paga pelos consumidores via tarifa.

Com a inflação acumulada desde 2012, o valor efetivo já supera 130 libras por megawatt-hora em termos atuais, enquanto a energia eólica offshore contratada no Reino Unido atinge hoje entre 40 e 60 libras por megawatt-hora. A diferença será paga pela fatura de eletricidade de cada residência e empresa britânica por três décadas e meia, independentemente do desempenho real da usina.

O Brasil não tem nenhum EPR em construção, mas o canteiro de Angra 3 repete padrões semelhantes de atraso crônico e revisão constante de orçamento que deveriam soar como alerta para gestores do setor

A usina Angra 3, localizada no município de Angra dos Reis no Rio de Janeiro, teve sua construção iniciada em 1984, interrompida em 1986 e retomada em 2010. Conforme dados da Eletronuclear, a obra já consumiu mais de 15 bilhões de reais sem chegar à fase de geração comercial, com previsão de conclusão repetidamente revisada ao longo das últimas quatro décadas.

O padrão que une Hinkley Point C, Flamanville, Olkiluoto e Angra 3 é estrutural: cronogramas nucleares são sistematicamente subestimados porque a indústria acumulou décadas de paralisação e perdeu massa crítica de mão de obra qualificada. Requalificar soldadores certificados para ambiente nuclear, por exemplo, leva entre dois e quatro anos. Quando o canteiro precisa dobrar de capacidade rapidamente, o mercado simplesmente não consegue responder na velocidade necessária.

Mesmo com todos os problemas, Hinkley Point C ainda representa a aposta britânica mais concreta na descarbonização da matriz elétrica, com capacidade projetada para abastecer 6 milhões de residências por 60 anos

Quando os dois reatores de Hinkley Point C finalmente entrarem em operação, a capacidade instalada de 3,2 gigawatts deverá fornecer cerca de 7% de toda a eletricidade consumida no Reino Unido, segundo projeções da National Grid ESO. Ao longo de 60 anos de vida útil projetada, isso equivale a evitar a emissão de aproximadamente 900 milhões de toneladas de CO2 em comparação com geração equivalente a gás natural.

O debate real não é se a energia nuclear tem papel na descarbonização. Há amplo consenso técnico de que tem. A questão central é se o modelo de grandes reatores de segunda geração como o EPR ainda faz sentido econômico quando pequenos reatores modulares, como os desenvolvidos pela Rolls-Royce com financiamento parcial do governo britânico, prometem custos de construção entre 1,8 e 2,5 bilhões de libras por unidade com prazo de montagem de quatro anos, conforme estimativas do consórcio Rolls-Royce SMR publicadas em 2023.

O legado mais duradouro de Hinkley Point C pode não ser a eletricidade que vai gerar, mas a pressão que criou sobre toda a indústria nuclear ocidental para repensar a escala, o financiamento e a engenharia de novos projetos antes de assinar mais contratos com os mesmos pressupostos.

Diante de um projeto que já custou 57 bilhões de dólares sem gerar um único watt comercial, você acredita que grandes usinas nucleares ainda são o caminho correto para a descarbonização, ou os pequenos reatores modulares deveriam concentrar todo o investimento do setor daqui para frente? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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