O Grupo Mateus, uma das maiores redes supermercadistas do Brasil, anunciou o fechamento de 28 lojas e a demissão de aproximadamente 6.600 funcionários ao longo de 2025 e 2026. A empresa, fundada em 1986 e sediada em São Luís do Maranhão, chegou a operar mais de 300 unidades entre supermercados, atacarejos e lojas de vizinhança. A reestruturação configura uma das maiores contrações recentes no varejo alimentar nacional e carrega efeitos diretos para a cadeia industrial que abastece essas regiões.
Pressão competitiva e queda nas vendas
O banco Citi projetou, em relatório de análise setorial, queda de 7% nas vendas do Grupo Mateus no trimestre afetado. A expansão agressiva do modelo de atacarejo por concorrentes como Assaí e Atacadão comprimiu as margens operacionais da companhia, que historicamente se diferenciava pelo atendimento a cidades do interior e mercados de menor renda no Norte e Nordeste, onde a concorrência com grandes redes era menor. O avanço dessas redes para o mesmo território retirou essa vantagem competitiva.
O ambiente macroeconômico agravou o quadro. Juros elevados, compressão do poder de compra e mudança nos hábitos de consumo da população de baixa e média renda pesaram sobre o desempenho das unidades fechadas. Não se trata de um problema isolado do Grupo Mateus: outros varejistas regionais enfrentam dificuldades semelhantes diante do mesmo conjunto de fatores.
Impacto direto sobre fornecedores industriais
Para a indústria brasileira, o fechamento tem consequências práticas e imediatas. O Grupo Mateus funcionava como canal de distribuição estratégico para fabricantes de alimentos processados, bebidas, produtos de higiene e embalagens destinados ao consumidor das regiões Norte e Nordeste, territórios que vinham sendo tratados por diversas indústrias como fronteiras de crescimento nos últimos anos.
Com 28 pontos de venda a menos, distribuidores, transportadoras e prestadores de serviços industriais vinculados às operações encerradas perdem volume de negócios de forma abrupta. A cadeia logística regional, em particular, absorve parte do impacto sem ter alternativas imediatas de reposicionamento, já que a demanda nas cidades atendidas por essas unidades não desaparece, mas migra para outros canais nem sempre acessíveis pelos mesmos fornecedores.
Indústrias que construíram sua estratégia comercial com base na capilaridade do Grupo Mateus no interior do Maranhão, Pará e estados vizinhos precisam revisar contratos, rotas de distribuição e volumes projetados. O ajuste não é simples: parte dessas cidades tem poucos pontos de venda formais com capacidade de absorver o volume anteriormente direcionado às lojas fechadas.
O Grupo Mateus abriu capital na B3 em 2020, em uma oferta inicial que movimentou cerca de R$ 2,8 bilhões, sob a promessa de expansão acelerada. Cinco anos depois, a empresa faz o movimento oposto, com o fechamento de unidades e corte de pessoal em escala que reverte parte do crescimento construído no período pós-IPO.

