A Volkswagen escolheu o Canadá em vez dos Estados Unidos para construir sua maior fábrica de baterias no continente, investindo US$ 7 bilhões em uma planta com capacidade para abastecer centenas de milhares de veículos elétricos por ano
Quando a Volkswagen anunciou que construiria sua primeira gigafábrica fora da Europa, os Estados Unidos pareciam o destino natural. Afinal, o Inflation Reduction Act americano havia prometido bilhões em subsídios para atrair fabricantes de baterias. O que aconteceu a seguir surpreendeu analistas dos dois lados da fronteira.
A PowerCo SE, subsidiária da Volkswagen responsável pela operação de baterias, confirmou o início das obras de sua gigafábrica em St. Thomas, no estado de Ontário, com investimento declarado de US$ 7 bilhões. Quando estiver em plena operação, a planta será a maior fábrica de baterias para veículos elétricos da América do Norte, com capacidade projetada de 90 GWh por ano, segundo dados divulgados pela própria PowerCo SE.
A gigafábrica de St. Thomas ocupará uma área de 1,5 milhão de metros quadrados e vai gerar até 3 mil empregos diretos quando atingir capacidade total de produção
A escala da planta é difícil de visualizar sem referências concretas. O terreno destinado à fábrica em St. Thomas, cidade de cerca de 40 mil habitantes a 180 km de Toronto, tem 1,5 milhão de metros quadrados, área equivalente a mais de 200 campos de futebol. A construção foi iniciada formalmente em 2024 e o início da produção está previsto para 2027, conforme informações da PowerCo SE.
Os 90 GWh de capacidade anual representam energia suficiente para produzir baterias de aproximadamente 1 milhão de veículos elétricos com pacotes de 90 kWh, ou 1,5 milhão de carros com baterias menores. Para efeito de comparação, toda a produção de baterias do Canadá antes deste projeto era marginal no contexto norte-americano, segundo dados da BloombergNEF.
O Canadá ofereceu um pacote de incentivos estimado em mais de US$ 13 bilhões em subsídios federais e provinciais, valor que superou numericamente qualquer proposta americana equivalente no mesmo período
A decisão da Volkswagen não foi sentimental. O governo federal canadense e o governo de Ontário apresentaram conjuntamente um pacote de apoio financeiro que, segundo reportagem da Reuters publicada em 2023, pode alcançar até US$ 13 bilhões ao longo de toda a vida operacional do projeto, combinando créditos tributários, subsídios diretos e garantias de fornecimento de energia limpa.
O acesso à energia hidrelétrica de baixo custo e baixa emissão de carbono de Ontário foi um fator decisivo. A produção de baterias consome enormes volumes de eletricidade, e o custo e a origem dessa energia afetam diretamente tanto o custo final do produto quanto os critérios de sustentabilidade exigidos por montadoras europeias. Segundo a PowerCo SE, a planta de St. Thomas operará integralmente com energia renovável desde o primeiro dia de produção.
As tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos canadenses e sobre componentes de veículos elétricos aceleraram a decisão da Volkswagen e expuseram uma vulnerabilidade estratégica na política industrial americana
O cenário geopolítico adicionou uma camada de urgência ao projeto. Com a reimposição de tarifas comerciais pelo governo americano sobre produtos canadenses e sobre baterias e veículos elétricos de origem estrangeira, a equação de custos para instalar a fábrica nos Estados Unidos piorou significativamente. Analistas do setor automotivo apontam que as tarifas americanas, em vez de atrair investimentos, redirecionaram capital para o Canadá, o México e a Europa.
O canal House of El, que documentou o movimento da Volkswagen em detalhe, destaca que a ironia do processo é quantificável: cada dólar de tarifa aplicado pelo governo americano contribuiu para tornar o pacote canadense proporcionalmente mais atraente. O resultado prático é que a maior planta de baterias da América do Norte será construída fora do território americano, empregará trabalhadores canadenses e pagará impostos ao governo de Ontário e ao governo federal em Ottawa.
O Brasil ainda não possui nenhuma gigafábrica de baterias em operação, mas o país concentra reservas de lítio, níquel e manganês que colocam o território nacional como candidato natural para projetos semelhantes nas próximas décadas
O caso canadense tem leitura direta para o Brasil. Conforme dados da Agência Nacional de Mineração, o Brasil detém a quinta maior reserva de lítio do mundo, além de reservas expressivas de níquel no Pará e de manganês no Amapá e no Mato Grosso do Sul. São exatamente os minerais críticos que alimentam a cadeia de produção de baterias de íon-lítio usadas em veículos elétricos.
Até o momento, nenhuma gigafábrica de baterias foi instalada no Brasil. A CBMM, empresa brasileira que controla cerca de 80% da produção mundial de nióbio, tem investido em pesquisa para aplicação do mineral em baterias de nova geração, mas a escala industrial ainda não foi atingida. O Canadá, ao fechar o contrato com a Volkswagen, mostrou que o pacote de incentivos correto pode mover décadas de planejamento industrial em poucos meses de negociação.
A tecnologia de células prismáticas que será produzida em St. Thomas representa a aposta da Volkswagen para reduzir o custo por kWh das baterias e tornar os veículos elétricos competitivos com modelos a combustão sem subsídios ao consumidor final
A fábrica não produzirá qualquer tipo de bateria. A PowerCo SE confirmou que St. Thomas fabricará células prismáticas padronizadas, formato que a Volkswagen está adotando em toda a sua plataforma elétrica global a partir de 2025. A célula prismática unificada reduz o número de variações de componentes em mais de 50% em comparação com as gerações anteriores, segundo dados técnicos da própria PowerCo SE, o que diminui custos de produção e simplifica a cadeia logística.
A meta declarada da PowerCo SE é atingir um custo inferior a US$ 80 por kWh nas células produzidas em St. Thomas quando a fábrica operar em plena capacidade. Para referência, o custo médio global de baterias para veículos elétricos era de US$ 139 por kWh em 2023, conforme levantamento da BloombergNEF. Atingir a meta representaria uma redução de 42% em relação à média global atual e tornaria o veículo elétrico de entrada economicamente equivalente ao equivalente a combustão sem nenhum incentivo governamental ao comprador.
A corrida global por gigafábricas transformou a escolha de localização industrial em uma decisão geopolítica tão relevante quanto a própria tecnologia que será produzida dentro de cada planta
O que o projeto de St. Thomas revela não é apenas a capacidade do Canadá de atrair investimentos. Revela que a corrida pela transição para veículos elétricos criou um novo mercado: o mercado de territórios. Governos competem com pacotes fiscais, garantias de energia limpa e acesso a minerais críticos da mesma forma que montadoras competem em autonomia de bateria e tempo de recarga.
A gigafábrica canadense da Volkswagen terá capacidade de 90 GWh anuais, empregará até 3 mil pessoas diretamente, recebeu mais de US$ 13 bilhões em comprometimentos governamentais e começou a ser erguida em um terreno de 1,5 milhão de metros quadrados em uma cidade que poucos fora do Canadá conheciam antes de 2023. Esses números, por si sós, definem a dimensão do que está em jogo.
O Brasil possui as reservas minerais para disputar projetos semelhantes. Falta saber se o país está disposto a montar o pacote de incentivos que fez o Canadá vencer essa rodada. Você acredita que o Brasil tem condições reais de atrair uma gigafábrica de baterias nos próximos dez anos? Deixe sua opinião nos comentários.

