A nova gigafábrica da BYD na China tem área maior que São Francisco e vai produzir um milhão de carros elétricos por ano sem que nenhuma linha fique ociosa

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A BYD está construindo a maior fábrica de veículos elétricos do mundo em um terreno de 20 km² no litoral da China, número que ultrapassa a área urbana de cidades inteiras

Quando se fala em escala industrial chinesa, os números costumam impressionar. Mas o que a BYD está erguendo na cidade de Zhengzhou, na província de Henan, entra em uma categoria diferente. O complexo fabril planejado ocupa uma área de aproximadamente 20 km², o que o coloca acima da área de São Francisco, uma das cidades mais densamente construídas dos Estados Unidos, com seus 121 km² de superfície total, mas apenas cerca de 13 km² de área industrial consolidada.

A capacidade projetada é de 1 milhão de veículos elétricos por ano quando a fábrica atingir operação plena. Para efeito de comparação, toda a produção de carros elétricos do Brasil em 2023 ficou em torno de 90 mil unidades, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico. Em outras palavras, uma única fábrica chinesa vai produzir, sozinha, mais de dez vezes o volume total do mercado nacional brasileiro.

A infraestrutura interna do complexo inclui porto próprio, usina de energia e linha ferroviária particular, o que elimina dependência de qualquer fornecedor externo de logística

O que diferencia essa instalação de qualquer outra gigafábrica já construída não é apenas o tamanho, mas o nível de autossuficiência logística. Conforme detalhado pelo canal Gulbahar Technical com base em documentos públicos da BYD, o complexo terá acesso direto ao mar por um porto de uso exclusivo, capaz de embarcar veículos acabados sem passar por terminais de terceiros.

Além disso, a planta contará com uma usina de geração de energia própria e um ramal ferroviário interno para movimentação de componentes entre os diferentes blocos da fábrica. Esse modelo elimina os chamados “gargalos externos”, que respondem por até 18% dos atrasos em cadeias automotivas tradicionais, segundo dados da consultoria alemã Roland Berger publicados em 2022.

A linha de montagem foi projetada para operar em três turnos sem interrupção, com automação acima de 80% nas etapas de estampagem, soldagem e pintura. Operadores humanos concentram-se principalmente nos processos de inspeção de qualidade e calibração de sistemas eletrônicos.

A BYD já controla toda a cadeia produtiva do veículo elétrico, da mineração de lítio à entrega final, e essa nova planta consolida uma vantagem que concorrentes globais levam décadas para replicar

A estratégia da BYD não começou com essa fábrica. A empresa é uma das poucas no mundo com controle vertical completo sobre a cadeia do veículo elétrico. Ela extrai lítio, fabrica as próprias células de bateria com tecnologia Blade Battery, produz os semicondutores utilizados nos sistemas de controle e ainda monta o veículo final.

Esse modelo reduz o custo de produção em aproximadamente 30% em relação a montadoras que dependem de fornecedores externos para baterias, de acordo com estimativas publicadas pela agência Reuters em 2023. O novo complexo em Zhengzhou foi desenhado para ampliar ainda mais essa vantagem: a fábrica de células de bateria integrada ao site tem capacidade declarada de 45 GWh por ano, volume suficiente para abastecer a produção completa da planta sem importar nenhuma célula externa.

O ritmo de construção da fábrica desafia qualquer parâmetro ocidental: fases que normalmente levam cinco anos foram comprimidas para menos de 24 meses com uso de pré-fabricação modular em escala massiva

Uma das informações mais difíceis de processar é a velocidade da obra. No modelo ocidental padrão, uma fábrica automotiva de grande porte leva entre quatro e seis anos da aprovação do terreno até o início da produção em série. A BYD trabalha com um cronograma de 22 a 24 meses para as fases iniciais de operação.

Isso é possível porque a empresa adota construção modular pesada: blocos inteiros de infraestrutura são pré-fabricados em outras unidades industriais da BYD e transportados já prontos para o canteiro. O método reduz o tempo de obra em até 40%, segundo o instituto de pesquisa em construção civil CIRIA, do Reino Unido. No canteiro de Zhengzhou, chegou a haver mais de 12 mil trabalhadores simultâneos em dias de pico, de acordo com registros publicados pela mídia local.

Enquanto a China instala gigafábricas de um milhão de veículos, o Canadá acaba de lançar a maior fábrica de baterias da América do Norte, com capacidade de 45 GWh e investimento de 5 bilhões de dólares canadenses

Do outro lado do Pacífico, o Canadá deu início às obras de sua própria gigafábrica de baterias, considerada a maior da América do Norte. Conforme detalhado pelo canal The Electric Viking, o projeto recebeu o nome de NextStar Energy e está sendo construído em Windsor, Ontário, em parceria entre a Stellantis e a LG Energy Solution.

O investimento total é de aproximadamente 5 bilhões de dólares canadenses, com capacidade projetada de 45 GWh anuais, o mesmo volume declarado para a unidade de baterias integrada à gigafábrica da BYD. A diferença está no escopo: a planta canadense produz apenas células de bateria, sem montar o veículo final. O complexo chinês faz tudo isso no mesmo endereço.

A fábrica de Windsor deve gerar cerca de 2.500 empregos diretos e entrar em operação parcial em 2025, segundo a Stellantis. Para o Canadá, é o maior investimento individual em manufatura de energia limpa da história do país.

O Brasil ainda não tem nenhuma gigafábrica de baterias em operação, mas o país concentra 22% das reservas mundiais de lítio e pode mudar esse cenário até 2030 se a política industrial avançar no ritmo atual

O contraste com o Brasil é revelador. O país possui a segunda maior reserva de lítio do mundo, estimada em 2,2 milhões de toneladas, de acordo com o Serviço Geológico do Brasil. Mesmo assim, não há nenhuma fábrica de células de bateria de escala industrial em operação no território nacional.

Há projetos em desenvolvimento. A Stellantis anunciou em 2023 um plano de eletrificação para Goiana, em Pernambuco, com previsão de produzir versões híbridas e elétricas de veículos de passeio. O governo federal, por meio do programa Mover, estabeleceu incentivos fiscais para montadoras que invistam em eletrificação no Brasil até 2026, com contrapartida mínima de R$ 19 bilhões em compromissos de investimento, conforme publicado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Mesmo com esse avanço, analistas do setor automotivo consultados pela Agência Brasil estimam que o país ainda está entre oito e doze anos atrás da China em termos de infraestrutura fabril para veículos elétricos. Zhengzhou, sozinha, já representa esse intervalo em forma de concreto e aço.

A gigafábrica da BYD muda o patamar de referência global para manufatura automotiva e torna obsoleto qualquer cálculo de competitividade feito antes de 2024

O que Zhengzhou representa não é apenas uma fábrica maior. É uma redefinição do que a indústria automotiva considera possível em termos de velocidade de implantação, grau de integração vertical e escala de output. Nenhuma montadora ocidental possui um projeto equivalente em aprovação ou construção, segundo o banco de dados de projetos industriais da BloombergNEF atualizado em janeiro de 2024.

Quando operar em plena capacidade, a fábrica da BYD em Zhengzhou produzirá um veículo elétrico completo a cada 30 segundos, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Esse ritmo supera em 60% a capacidade da Gigafactory Nevada da Tesla, que durante anos foi considerada o padrão máximo de escala na indústria de veículos elétricos.

O Brasil tem as reservas de lítio, tem mão de obra e tem mercado consumidor crescente: por que o país ainda não tem uma gigafábrica de baterias em construção? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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