A Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC) emitiu alerta sobre uma ameaça concreta ao setor de proteínas animais do estado: a possível proibição de exportações de carne brasileira para o mercado europeu, em razão de exigências sanitárias ligadas ao uso de antimicrobianos na criação de animais. O valor em jogo é estimado em R$ 880 milhões por ano em receitas geradas por Santa Catarina, um dos principais polos avícolas do país, onde operam gigantes como BRF e Aurora Alimentos, além de centenas de produtores integrados.
Regulação europeia como barreira comercial
A Comissão Europeia passou a exigir adequações rigorosas relacionadas ao controle de antimicrobianos na produção animal, dentro de um conjunto de políticas do chamado Pacto Verde Europeu e da Estratégia “Do Prado ao Prato”. A medida faz parte do movimento global de combate à resistência antimicrobiana, que ganhou espaço crescente na agenda de saúde pública internacional. Para o setor industrial brasileiro, o efeito prático é o de uma barreira não tarifária: não se trata de tarifa sobre o produto, mas de requisitos de processo que a cadeia produtiva nacional ainda não atende nos moldes exigidos pelo bloco.
O impacto não se limita às granjas. Frigoríficos, indústrias de embalagem, transportadoras e fornecedores de insumos compõem uma cadeia logística que depende diretamente do acesso europeu para manter volume e margem. Santa Catarina concentra parte expressiva dessa estrutura produtiva, o que torna a ameaça especialmente sensível para a economia industrial do estado.
O que a FIESC exige do governo federal
A federação tem pressionado o governo federal e entidades setoriais por duas frentes. A primeira é a negociação de um prazo adequado de adaptação junto à União Europeia, evitando uma ruptura abrupta nos fluxos de exportação. A segunda é a elaboração de um plano nacional de redução do uso de antimicrobianos que seja formalmente reconhecido pelo bloco europeu como suficiente para manter o acesso ao mercado.
Sem esse reconhecimento, produtores e frigoríficos catarinenses correm o risco de ver fechadas as portas de um dos destinos mais rentáveis para proteínas animais brasileiras. A Europa paga preços superiores aos de outros mercados e representa um diferencial competitivo que sustenta parte da viabilidade econômica dos produtores integrados no modelo predominante em Santa Catarina.
O episódio expõe uma tensão estrutural que o setor industrial brasileiro enfrenta com frequência crescente: as normas de sustentabilidade e saúde pública adotadas por blocos como a União Europeia redefinem, na prática, quem pode ou não acessar esses mercados. Adaptar-se a esses padrões exige tempo, investimento e coordenação entre setor privado e governo, recursos que nem sempre estão disponíveis no ritmo que os reguladores externos determinam. Em 2024, o Brasil exportou mais de 2 milhões de toneladas de carne de frango, sendo a União Europeia um dos principais destinos do produto processado de maior valor agregado.

