O Brasil reciclou 97,3% das latas de alumínio consumidas em 2024, uma das maiores taxas do mundo, e registrou volume recorde de vendas de embalagens metálicas no setor de bebidas. Apesar disso, parte crescente dessa sucata está sendo exportada para o mercado externo em vez de retornar à cadeia produtiva nacional, o que tem reduzido o estoque de matéria-prima disponível para fundições e laminadoras brasileiras e elevado os custos internos de produção. A Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) vem alertando para o problema, que transforma um desempenho logístico notável em vantagem competitiva para concorrentes estrangeiros.
O paradoxo da reciclagem exportada
O alumínio reciclado consome cerca de 95% menos energia do que o metal primário obtido a partir da bauxita. Isso torna a sucata nacional um insumo com altíssimo valor competitivo para a indústria doméstica. Quando esse material é exportado, o país não perde apenas a matéria-prima: perde também toda a vantagem energética e ambiental construída ao longo de décadas de investimento em logística reversa. As principais plantas de reprocessamento de alumínio secundário estão concentradas em São Paulo e Minas Gerais, exatamente onde o impacto do desabastecimento se faz mais sentido.
O mercado de latas cresceu impulsionado pelo consumo de cervejas e refrigerantes em 2024. O volume gerado pós-consumo deveria, em tese, alimentar de volta essa mesma cadeia. O que ocorre na prática é que compradores internacionais pagam preços que tornam a exportação mais atrativa do que o reprocessamento doméstico, criando um ciclo que prejudica a competitividade da indústria local sem que haja, até agora, nenhum mecanismo regulatório eficaz de retenção do material no país.
Pressão externa agrava o cenário interno
A disputa pela sucata ocorre num momento em que a indústria brasileira de alumínio já lida com instabilidade nas exportações. As tarifas impostas pelo governo norte-americano sobre aço e alumínio, em vigor desde 2025, afetam simultaneamente os produtos manufaturados brasileiros destinados ao mercado americano e encarecem insumos para fabricantes nos Estados Unidos. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que essas medidas criam um ambiente de incerteza que reduz a previsibilidade de contratos e investimentos no setor.
Com acesso restrito à sucata nacional e mercados externos menos receptivos a produtos acabados, as fundições brasileiras ficam pressionadas em duas frentes ao mesmo tempo. A discussão sobre soluções passa por tributação sobre a exportação de sucata ou incentivos fiscais ao reprocessamento interno, mas nenhuma dessas medidas avançou de forma concreta até o fechamento desta edição.
A taxa de reciclagem de 97,3% registrada em 2024 foi confirmada pelo Guia da Cerveja e pela Agência Brasil, e coloca o país entre os líderes mundiais na gestão pós-consumo de alumínio. O dado contrasta com a ausência de políticas que garantam que esse material permaneça disponível para a indústria que o gerou.

