A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) reuniu especialistas em junho de 2026 para debater os efeitos da economia ilegal sobre a competitividade do setor produtivo nacional. O tema ganhou contornos mais agudos com a realização da Copa do Mundo no Brasil, evento que historicamente aquece o comércio informal, a pirataria e a circulação de produtos falsificados. Estimativas do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco) indicam que a economia subterrânea pode corresponder a entre 17% e 20% do PIB nacional — o equivalente a trilhões de reais que não passam pelo sistema formal de tributação.
Concorrência desleal como freio ao investimento industrial
Para a indústria, o problema não é apenas fiscal. Produtos ilegais — cigarros contrabandeados, eletrônicos falsificados, combustíveis adulterados — competem diretamente com fabricantes que recolhem impostos, cumprem regulamentações sanitárias e trabalhistas e investem em inovação. Essa assimetria corrói margens operacionais e desincentiva novos aportes em capacidade produtiva. O resultado prático é a redução de empregos formais em setores específicos, exatamente quando o país precisa ampliar a base industrial.
A Fiesp representa mais de 130 sindicatos patronais e cerca de 42 mil empresas só em São Paulo, estado que responde por aproximadamente 30% do PIB industrial brasileiro. A entidade tem pressionado o governo federal por medidas mais efetivas de fiscalização nas fronteiras e por maior integração entre órgãos de controle aduaneiro, Receita Federal e forças de segurança.
Segurança pública e logística industrial: o elo menos visível
Além do impacto direto nas finanças das empresas, o debate na Fiesp trouxe à tona uma dimensão menos discutida: a interferência da economia ilegal sobre a logística industrial. Em regiões onde o crime organizado controla rotas de escoamento, o transporte de mercadorias encarece, seguradoras elevam prêmios e empresas passam a evitar determinadas localidades. Isso fragmenta cadeias produtivas e concentra ainda mais a atividade econômica em poucos polos urbanos.
O cigarros contrabandeados ilustram bem o problema. O Brasil é um dos maiores mercados mundiais de cigarros ilegais, com fatia estimada em cerca de 50% do consumo total, segundo dados do Etco. Cada maço vendido fora da legalidade representa perda de arrecadação para o governo e receita para redes criminosas que frequentemente financiam outras atividades ilícitas.
Copa do Mundo amplifica o risco
A escolha do momento para o debate não foi casual. Grandes eventos esportivos concentram fluxo turístico, ampliam a demanda por produtos de baixo preço e criam oportunidades para a entrada de mercadorias sem origem comprovada. A Copa do Mundo de 2026, com jogos sediados em várias cidades brasileiras, expõe de forma particular os setores de vestuário, eletrônicos e bebidas à concorrência de produtos falsificados. Para a indústria formal, o período exige vigilância redobrada e coordenação com autoridades alfandegárias.
O Etco estima que, se a economia subterrânea fosse reduzida à metade, o impacto em arrecadação tributária poderia superar R$ 500 bilhões ao ano, valor suficiente para financiar políticas de infraestrutura e desoneração que o setor industrial reivindica há anos.

