A Confederação Nacional da Indústria (CNI) encaminhou ao governo federal, em julho de 2026, uma proposta formal de ampliação da Nota de Importação Brasileira (NIB) como resposta aos impactos do tarifaço norte-americano sobre a indústria doméstica. A iniciativa parte da constatação de que as sobretaxas impostas pelos Estados Unidos ao longo de 2025 e 2026 geram dois problemas simultâneos: encarecem as exportações brasileiras para o mercado americano e provocam desvios de comércio, com países terceiros redirecionando excedentes de produção ao Brasil a preços artificialmente baixos.
O que a CNI propõe e por que agora
Na proposta, a NIB funcionaria como instrumento de rastreamento, controle e eventual compensação sobre fluxos de importação que afetam cadeias produtivas industriais brasileiras. Os segmentos mais expostos são siderurgia, bens de capital, química e eletroeletrônicos, todos vulneráveis à entrada de produtos desviados de seus destinos originais após o fechamento parcial do mercado americano. A lógica do desvio de comércio é direta: se um país perde acesso aos EUA por causa das tarifas, ele busca outros mercados para escoar sua produção, e o Brasil, com tarifa média relativamente baixa, torna-se destino natural desse excedente.
A CNI representa mais de 700 sindicatos patronais e cerca de 8 milhões de trabalhadores em todo o país. A entidade tem atuado junto ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e ao Ministério das Relações Exteriores para estruturar uma resposta ao novo ambiente tarifário global. A proposta da NIB ampliada é parte dessa articulação, não uma ação isolada.
Pressão sobre a balança comercial industrial
O tarifaço americano intensificou um debate que já existia no setor industrial brasileiro: a ausência de mecanismos ágeis de defesa comercial compatíveis com a velocidade das mudanças no comércio internacional. Os instrumentos tradicionais, como investigações antidumping e salvaguardas, têm prazos longos de tramitação e não respondem bem a choques externos rápidos. A NIB, conforme desenhada na proposta da CNI, poderia oferecer rastreamento mais imediato dos fluxos que distorcem a competição doméstica.
O Brasil exportou cerca de 27,8 bilhões de dólares em produtos industrializados para os EUA em 2024, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento. Com as novas tarifas, parte desse volume já registrou retração em 2025, pressionando negativamente o saldo da balança comercial industrial, que historicamente é deficitário quando se desconta o agronegócio.
A proposta ainda depende de avaliação técnica do MDIC e de eventual aprovação legislativa, a depender do formato jurídico escolhido para a ampliação do instrumento. A CNI não divulgou prazo esperado para resposta do governo.

