Na cidade de Guimarães, em Portugal, o Grupo AMF Safety Shoes anunciou recentemente o início de um projeto ambicioso: a adaptação de sua unidade fabril para começar a produzir botas destinadas especificamente ao uso militar. O que aconteceu é uma rápida e estratégica transição industrial, que reposiciona a empresa para atender à crescente e bilionária demanda por suprimentos de defesa na Europa.
Essa manobra é de extrema relevância para o setor industrial. Ela reflete a agilidade dos fabricantes europeus em responder à maciça onda de investimentos em defesa, estimada em €100 bilhões pela Comissão Europeia, destinada a reforçar a infraestrutura crítica e a capacidade de mobilização militar no continente. Para a indústria, significa que a segurança e o fornecimento interno se tornaram prioridades máximas.
A AMF Safety Shoes, liderada pelo CEO Albano Fernandes, não é uma empresa de pequeno porte. Especializada em calçados de segurança, a empresa emprega atualmente 220 pessoas e demonstrou um crescimento financeiro sólido, projetando um faturamento de €24 milhões (cerca de R$149milhões) para este ano, superando os €22 milhões (cerca de R$136 milhões) alcançados no ano anterior.
O foco da adaptação da fábrica é claro: “trabalhar para o mercado europeu e não apenas o nacional”. Isso demonstra uma ambição em capturar uma fatia do mercado de defesa que está em rápida expansão, buscando um contrato de longo prazo e alta escala com as forças armadas do continente, que buscam fornecedores confiáveis e com capacidade produtiva comprovada.
A modernização da fábrica incluirá a operação de duas linhas de produção diferenciadas. Uma delas será focada em inovação, desenvolvendo botas militares com tecnologia de ponta em termos de conforto, durabilidade e desempenho. A outra linha será mais tradicional, garantindo a produção em volume e a preços competitivos para as grandes encomendas militares.
Embora o CEO da AMF tenha preferido manter sigilo sobre os detalhes técnicos e o cronograma exato de investimento, o fato de uma empresa que já fatura milhões direcionar seu foco para o setor de defesa é um sinal inequívoco.
Isso indica que a corrida europeia por autossuficiência em equipamentos militares está se tornando o próximo grande motor de crescimento industrial.
O movimento da AMF em Guimarães é um microcosmo do que está acontecendo em toda a União Europeia.
A garantia de que suprimentos críticos — desde a bota até o armamento pesado — sejam fabricados internamente é uma política que assegura a cadeia de valor e estimula a inovação industrial local.
A indústria de calçados portuguesa, conhecida pela sua qualidade, está agora pronta para calçar os soldados de toda a Europa.

