Campinas encerrou o primeiro semestre de 2026 com saldo positivo de 8.432 vagas formais, segundo dados do Caged divulgados em agosto, mas o resultado agregado esconde dinâmicas setoriais preocupantes para a indústria local. O setor comercial terminou o período com destruição líquida de empregos, enquanto os serviços responderam pelo grosso das novas contratações, revelando uma divisão clara no mercado de trabalho da cidade, que é um dos maiores polos industriais e logísticos do interior paulista.
A taxa Selic permaneceu em 14,25% ao ano durante boa parte do semestre, o que encareceu o crédito e comprimiu o consumo das famílias. Esse ambiente afetou diretamente o varejo, mas também chegou às plantas produtivas da região. Para empresas dos segmentos químico, farmoquímico, de borracha e plásticos instaladas no entorno de Campinas, a queda na demanda por matérias-primas e produtos de especialidade já se reflete nas decisões de reposição de quadros. O economista consultado pela reportagem que embasou os dados do Caged regional aponta os juros elevados e o crédito restrito como principais causas do recuo do comércio, leitura que se estende à cadeia de insumos industriais.
Serviços crescem, indústria química observa
O crescimento das contratações no setor de serviços pode indicar uma migração de mão de obra qualificada do chão de fábrica e do varejo para atividades de suporte técnico, logística especializada e serviços B2B. Para os gestores de recursos humanos da indústria química, esse movimento merece atenção: perder operadores e técnicos experientes para prestadores de serviço é um custo que não aparece imediatamente nas estatísticas de demissão, mas compromete a capacidade produtiva a médio prazo.
Campinas concentra unidades de grandes grupos dos setores químico e farmoquímico, e o comportamento do mercado de trabalho local funciona como termômetro para o desempenho industrial de São Paulo, estado que responde por cerca de 40% do PIB industrial químico brasileiro. Quando o comércio campineiro perde vagas em semestre de juros altos, a cadeia que abastece esse comércio, incluindo distribuidores de produtos químicos de limpeza, higiene e especialidades, tende a segurar contratações.
O que os números do Caged sinalizam para o setor
O saldo positivo de 8.432 vagas no acumulado do semestre não deve ser lido como indicativo de aquecimento generalizado. O crescimento veio concentrado em serviços, enquanto o comércio recuou. A indústria química, que depende tanto do consumo das famílias quanto da atividade industrial de outros setores, opera num ponto de tensão entre esses dois movimentos. Empresas que planejam expansão de quadros na segunda metade de 2026 terão de considerar o ritmo de decisão do Copom sobre a Selic e o comportamento do crédito ao consumidor nos próximos meses.
No acumulado de janeiro a junho, o Caged de Campinas registrou mais admissões do que demissões em termos absolutos, mas o setor comercial fechou o semestre no negativo, resultado incomum para uma cidade cuja economia depende fortemente do varejo e da distribuição de bens.

