As exportações brasileiras para a Argentina recuaram 19,4% no primeiro semestre de 2026, na queda mais acentuada registrada nas relações comerciais bilaterais em anos recentes. O movimento tem causa direta nas reformas econômicas de Javier Milei, cujo programa de abertura comercial reduziu barreiras tarifárias e abriu caminho para uma avalanche de produtos chineses a preços que o Brasil não consegue competir. A China voltou a ocupar a posição de principal fornecedora de bens à Argentina, superando o Brasil em um mercado historicamente dominado pelos vizinhos do Mercosul.
Manufaturados brasileiros perdem espaço
O setor que mais sente o baque é o de manufaturados de média e alta complexidade. Produtos automotivos, químicos, máquinas e equipamentos sempre tiveram na Argentina um destino certo, justamente pela proximidade geográfica, pelos acordos no âmbito do Mercosul e pela complementaridade entre as cadeias produtivas dos dois países. Com a abertura promovida por Milei, esse diferencial perdeu peso. A China entrou com custos mais baixos, logística global consolidada e capacidade de oferta em escala que poucos países conseguem replicar.
Não é um fenômeno exclusivo da Argentina. A expansão chinesa em mercados emergentes segue uma lógica que combina subsídios estatais, escala industrial e agressividade comercial. O Brasil já enfrenta a mesma pressão em outros mercados da América Latina, mas a Argentina tem peso diferente: é o segundo maior destino das exportações industriais brasileiras na região.
Pressão sobre política comercial e câmbio
A queda das exportações chega em momento interno delicado. Juros elevados encarecem o crédito para as empresas exportadoras e o câmbio, ainda volátil, compromete o planejamento de médio prazo. O cenário argentino reacende o debate sobre diversificação de mercados, algo que o governo e o setor privado brasileiro discutem há décadas sem avanços concretos suficientes.
O recuo também pressiona as negociações do acordo Mercosul-União Europeia. Se a Argentina aprofunda sua abertura unilateral, parte da lógica de bloco que sustenta o acordo perde coerência, o que complica a posição negociadora conjunta. Para Brasília, o desafio é duplo: reagir à perda de mercado argentino e garantir que o Mercosul ainda funcione como plataforma comercial relevante.
Indústrias brasileiras que dependem da Argentina como principal praça de exportação regional precisam rever estratégias. A queda de 19,4% em seis meses não é flutuação conjuntural. É sinal de uma reconfiguração estrutural no perfil de fornecedores da Argentina, e reverter esse movimento exige mais do que câmbio favorável ou proximidade geográfica.

