A usina nuclear britânica Hinkley Point C já custou o dobro do orçamento inicial e ainda não gerou um único watt de eletricidade enquanto a China inaugura reatores a cada três meses

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O projeto de energia nuclear mais caro da história europeia acumula atrasos de anos e custos que subiram de 18 bilhões para mais de 48 bilhões de libras esterlinas sem previsão firme de entrega

Quando a Hinkley Point C foi anunciada em 2016 como a salvação energética do Reino Unido, o governo britânico apresentou um orçamento de 18 bilhões de libras e prometia energia limpa para 6 milhões de residências a partir de 2025. Hoje, nenhuma das duas promessas sobrevive. O custo oficial ultrapassou 48 bilhões de libras, o equivalente a aproximadamente 57 bilhões de dólares, e a data de entrega foi empurrada para depois de 2030.

O canteiro de obras no interior de Somerset, na costa oeste da Inglaterra, é tecnicamente o maior da Europa. São mais de 11 mil trabalhadores mobilizados simultaneamente, toneladas de concreto especial e dois reatores EPR de 1,6 gigawatt cada. O problema não é a escala. O problema é o que aconteceu com o controle do projeto ao longo do caminho.

O reator EPR foi projetado para ser mais seguro do que qualquer tecnologia anterior, mas sua complexidade transformou cada canteiro onde foi instalado em um laboratório de erros de gestão e engenharia

O reator EPR, sigla para Evolutionary Power Reactor, foi desenvolvido pela francesa Framatome com apoio da Siemens nos anos 1990. A proposta técnica era robusta: quatro sistemas de resfriamento independentes, blindagem reforçada contra impactos externos e capacidade de conter um acidente severo sem evacuar populações vizinhas. Na teoria, representava a evolução natural da geração III de reatores.

Na prática, o EPR nunca havia sido construído até o início das obras em Olkiluoto, na Finlândia, em 2005. Quando os problemas de soldagem e qualidade de concreto apareceram ali, os engenheiros perceberam que estavam lidando com especificações que nenhuma cadeia de fornecedores europeia havia executado antes. A usina finlandesa, orçada em 3 bilhões de euros, custou 11 bilhões e levou 17 anos para entrar em operação comercial, conforme dados da empresa operadora TVO.

Hinkley Point C herdou os planos do EPR sem herdar as lições. Conforme documentado pelo canal The B1M, problemas similares de qualidade em soldas e estruturas de aço foram identificados já nas fases iniciais da construção britânica, resultando em retrabalho extensivo e paralisações que se acumularam mês a mês.

A EDF Energy estimava que cada dia de atraso no cronograma custaria ao projeto entre 1 e 2 milhões de libras, valor que, multiplicado por anos de desvio, explica boa parte do rombo financeiro atual

Gerenciar um canteiro de obra nuclear não se parece em nada com gerenciar uma construção civil convencional. Cada solda em um circuito primário exige documentação rastreável, inspeções por raios-X e aprovação do regulador nuclear antes do próximo passo. Se uma peça não passa na inspeção, ela não é simplesmente corrigida no local. Em muitos casos, toda a sequência construtiva daquela seção precisa ser reiniciada.

Segundo relatórios publicados pela EDF Energy, operadora responsável pela construção, os custos com retrabalho já representavam parcela relevante dos desvios orçamentários registrados até 2023. A empresa também admitiu dificuldades para encontrar mão de obra com as qualificações exigidas pelas normas nucleares britânicas, um gargalo que afetou o ritmo das obras em múltiplas frentes simultaneamente.

A estrutura de financiamento do projeto criou uma equação em que quanto mais o custo sobe, mais o consumidor britânico paga, porque o contrato de fornecimento de energia foi indexado à inflação por 35 anos

O mecanismo criado pelo governo britânico para viabilizar Hinkley Point C chama-se Contrato por Diferença. Funciona assim: o governo garante à EDF um preço mínimo pela eletricidade gerada, corrigido anualmente pela inflação, por 35 anos a partir da entrada em operação. Se o preço de mercado ficar abaixo do garantido, o consumidor paga a diferença.

O preço garantido original era de 92,50 libras por megawatt-hora em valores de 2012. Atualizado pela inflação acumulada até 2024, esse valor já ultrapassa 130 libras por megawatt-hora, conforme cálculos publicados pelo think tank britânico Ember Climate. Para comparação, o preço médio de mercado da eletricidade no Reino Unido em períodos normais fica entre 50 e 80 libras por megawatt-hora.

O resultado prático é que mesmo quando Hinkley Point C finalmente gerar energia, ela será estruturalmente mais cara do que a maior parte do que já está disponível na rede britânica, incluindo energia eólica offshore instalada nos últimos cinco anos.

Enquanto o Reino Unido debate atrasos, a China comissionou 22 novos reatores nucleares nos últimos dez anos e tem mais 23 em construção, com custo médio por unidade entre três e quatro vezes menor do que os projetos ocidentais

A comparação com a China não é apenas numérica. É estrutural. Conforme documentado pelo canal The B1M no segundo vídeo sobre o setor, o país asiático desenvolveu uma cadeia de fornecedores verticalizada especificamente para construção nuclear, com fábricas de componentes, programas de formação de mão de obra especializada e autoridades regulatórias que trabalham em paralelo com as obras, não em sequência.

O resultado prático é velocidade. A CGN, empresa estatal chinesa de energia nuclear, registra tempo médio de construção de 7 anos entre a aprovação e o início de operação comercial de um reator. No modelo europeu atual, esse prazo raramente fica abaixo de 15 anos. O custo por kilowatt instalado na China ficou entre 2.500 e 3.500 dólares em projetos recentes, conforme dados da Agência Internacional de Energia Atômica. Em Hinkley Point C, esse valor supera 10.000 dólares por kilowatt.

No Brasil, o único canteiro nuclear em operação é Angra 3, cuja construção foi retomada em 2010 depois de ficar paralisada por 13 anos, e o prazo de conclusão já foi revisado para depois de 2030 com custo estimado de 25 bilhões de reais

O Brasil não é exceção ao padrão global de atrasos nucleares. A Eletronuclear, empresa responsável pelas usinas de Angra dos Reis, estima que Angra 3 chegará a um custo total entre 22 e 25 bilhões de reais quando concluída. A usina foi originalmente planejada para os anos 1980, paralisada por restrições orçamentárias em 1986, retomada em 2010 e agora enfrenta sua segunda grande reavaliação de prazo e custo.

A capacidade instalada prevista é de 1,4 gigawatt, suficiente para abastecer uma cidade do porte de Fortaleza. O desafio brasileiro é semelhante ao britânico em pelo menos um aspecto crítico: a descontinuidade da cadeia de fornecedores locais ao longo de décadas de paralisação gerou perda de conhecimento técnico acumulado que não se reconstrói rapidamente.

O debate sobre o futuro da energia nuclear concentra hoje dois campos claros: o dos que veem nos reatores de pequeno porte a solução para os problemas de custo e prazo, e o dos que argumentam que a história não autoriza mais otimismo

Os chamados SMRs, ou reatores modulares de pequeno porte, são a aposta da próxima geração de projetos nucleares ocidentais. A proposta é construir unidades padronizadas em fábrica e instalá-las em campo como módulos, reduzindo o risco de erros de execução no canteiro e aproveitando ganhos de escala na produção seriada.

Nenhum SMR comercial opera fora da China e da Rússia até agora. O projeto NuScale, que seria o primeiro aprovado nos Estados Unidos, foi cancelado em 2023 depois que o custo estimado mais que dobrou na fase de licenciamento, conforme comunicado pela própria NuScale Power. A tecnologia é promissora. O histórico de gestão de projetos nucleares no Ocidente é o que coloca essa promessa sob escrutínio permanente.

Hinkley Point C, quando finalmente entrar em operação, gerará energia por 60 anos. O custo total do projeto, somando construção, financiamento e operação, pode ultrapassar 250 bilhões de libras ao longo desse período, segundo projeções do National Audit Office britânico publicadas em 2023.

A decisão de construir usinas nucleares com tecnologia que nunca havia sido executada em escala comercial, sem cadeia de fornecedores pronta e com contratos que transferem o risco de custo para o consumidor, foi tomada por governos eleitos com base em premissas que se mostraram equivocadas: você acha que os países ocidentais ainda têm condições reais de competir com a China na construção de energia nuclear nas próximas décadas? Deixe sua opinião nos comentários.

Marcelo Costa
Marcelo Costahttps://galpaodasmaquinas.com.br
Marcelo Costa é redator especializado em conteúdos voltados ao universo empresarial, industrial e de engenharia. Com experiência na produção de textos informativos e analíticos, atua na cobertura de notícias relevantes do setor produtivo, acompanhando tendências, movimentações de mercado e avanços tecnológicos que impactam diretamente empresas e profissionais da área. Seu trabalho é focado em transformar informações técnicas e dados complexos em conteúdos claros, objetivos e úteis para o dia a dia de empresários, gestores e operadores. Ao longo de suas publicações, busca não apenas informar, mas também contextualizar os acontecimentos, destacando oportunidades, riscos e mudanças que podem influenciar decisões estratégicas. No blog, Marcelo aborda desde atualizações do cenário industrial até inovações em engenharia, novos investimentos, fusões, aquisições e mudanças regulatórias. Seu compromisso é entregar conteúdo confiável, direto ao ponto e alinhado com a realidade de quem vive o mercado na prática.

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