O Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e Singapura entra em vigor em 1º de agosto de 2026, eliminando tarifas de exportação para uma série de produtos brasileiros com destino ao mercado asiático. Para o setor de papel e celulose, a medida chega em um momento em que o Brasil já exporta mais de 22 milhões de toneladas do produto por ano, com receitas superiores a US$ 12 bilhões em 2025, e busca reduzir a dependência histórica dos mercados europeu e chinês.
Por que Singapura importa para o setor
Com apenas 5,9 milhões de habitantes, Singapura não é um destino final expressivo para celulose. Seu peso está em outra função: a cidade-estado opera como um dos principais hubs logísticos e financeiros do Sudeste Asiático, funcionando como porta de entrada para Indonésia, Malásia, Vietnã e Tailândia. Isso significa que o acordo vai além de um canal bilateral e abre, na prática, acesso facilitado a toda uma região de consumo crescente.
O Brasil é o maior produtor mundial de celulose de eucalipto de fibra curta. Suzano, Klabin e Bracell lideram esse segmento globalmente, e a eliminação de barreiras tarifárias na Ásia-Pacífico melhora diretamente a posição competitiva dessas companhias frente a concorrentes escandinavos, canadenses e chilenos, que já operam com acordos comerciais mais consolidados na região.
Ganho externo sem reforma interna tem limite
A indústria brasileira recebe o acordo com interesse, mas o otimismo tem ressalvas. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) defende que acordos comerciais precisam ser acompanhados de redução do Custo Brasil, que, segundo a entidade, retira o equivalente a 20% do PIB em competitividade do setor produtivo nacional. Sem avanços nessa frente, margens operacionais das produtoras continuam pressionadas por dentro, mesmo com a abertura de mercados por fora.
O setor de celulose é um dos mais expostos a esse desequilíbrio. Energia elétrica, logística de escoamento portuário, encargos tributários e burocracia aduaneira compõem um conjunto de custos estruturais que nenhum acordo tarifário elimina. A questão, para as empresas, é se o ganho de competitividade obtido com a tarifa zero em Singapura será suficiente para compensar esses fatores internos ou se apenas reposicionará levemente o Brasil em mercados onde a concorrência já é agressiva.
Em 2025, a Suzano sozinha registrou volume de vendas externas de celulose superior a 10 milhões de toneladas, com a China respondendo pela maior fatia dos destinos. A diversificação geográfica via Sudeste Asiático é uma estratégia que a companhia já persegue, e o novo acordo oferece respaldo institucional para esse movimento.

