A extinção do imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, popularmente chamado de “taxa das blusinhas”, gerou resposta imediata do consumidor brasileiro: as encomendas em plataformas como Shopee, Shein e AliExpress dispararam 118%, atingindo recorde histórico, segundo dados da Receita Federal. O resultado reacende o debate sobre competitividade industrial no país, sobretudo para os segmentos de vestuário, calçados, eletroeletrônicos e utilidades domésticas.
A tributação havia sido criada em agosto de 2023 com o argumento de equalizar as condições entre o comércio eletrônico internacional e o varejo nacional. Na prática, entidades como a CNI e a FIESC defendiam a medida como proteção contra a concorrência asiática, que pratica preços estruturalmente mais baixos. Com o fim da taxa, essa proteção deixou de existir e o volume de compras externas revelou uma demanda reprimida que a alíquota, aparentemente, continha.
Setores industriais na linha de frente
Santa Catarina ilustra bem a exposição do setor produtivo. Blumenau, Brusque e Joinville abrigam centenas de empresas têxteis que empregam milhares de trabalhadores, e esse polo já sentia pressão da concorrência externa mesmo com a taxa vigente. Sem nenhuma barreira tarifária sobre o pequeno valor, produtos asiáticos voltam a chegar ao consumidor final com diferença de preço que o fabricante nacional dificilmente consegue absorver.
O problema não é exclusivo do têxtil. Eletroeletrônicos de baixo custo e itens de utilidade doméstica vendidos nas plataformas asiáticas competem diretamente com linhas produzidas no Brasil, muitas vezes com margem inviável para o fabricante local manter investimento e geração de empregos no mesmo nível.
O que os números indicam
Uma alta de 118% nas encomendas não é flutuação sazonal. É um sinal de que a política tarifária tinha efeito real sobre o comportamento de compra. A reversão desse comportamento em tão pouco tempo sugere que a faixa de isenção, mesmo limitada a US$ 50 por transação, mobiliza um volume expressivo de consumo que anteriormente poderia ser direcionado ao mercado interno.
Para a indústria, o risco concreto está na perda progressiva de fatia do mercado doméstico, com reflexos em faturamento, ritmo de contratações e capacidade de investimento em inovação. A CNI e entidades setoriais ainda não divulgaram posição formal sobre o recorde registrado pela Receita Federal, mas o dado reforça o argumento que essas mesmas entidades usavam para defender a manutenção da tributação.
O recorde de encomendas internacionais foi registrado já no primeiro período após a extinção do imposto, conforme os dados oficiais da Receita Federal divulgados recentemente.

