Aproximadamente 100 empresas americanas do setor fotovoltaico pediram falência nos últimos anos, num processo que a Harvard Business School passou a estudar formalmente como um caso de colapso industrial em cadeia. O levantamento, divulgado em junho de 2026, identifica o fenômeno não como uma sequência de eventos isolados, mas como resultado de pelo menos quatro pressões simultâneas: concorrência de produtos importados chineses a preços abaixo do custo de produção local, excesso de capacidade instalada no mercado americano, elevação das taxas de juros que encareceu o crédito para projetos de infraestrutura e as tarifas comerciais impostas nos últimos governos, que desorganizaram cadeias de suprimentos inteiras.
Por que o colapso americano vai além das fronteiras dos EUA
Os Estados Unidos são um dos maiores mercados mundiais de painéis solares e equipamentos de geração distribuída. A falência em massa dessas empresas não afeta apenas o mercado interno americano: fabricantes de inversores, cabos, estruturas metálicas e componentes semicondutores que abastecem os projetos solares nos EUA integram cadeias de fornecimento compartilhadas com empresas europeias e brasileiras. Quando um elo dessa cadeia quebra em escala, o efeito se propaga.
Um relatório da Deloitte publicado no mesmo período aponta fenômeno semelhante no setor químico, com o fechamento de plantas industriais gerando efeito dominó em cadeias de suprimentos. A coincidência de crises em setores distintos de tecnologia limpa e manufatura sugere uma reconfiguração estrutural da indústria global, não uma turbulência passageira de mercado.
O risco concreto para o Brasil
O mercado solar brasileiro cresceu de forma acelerada nos últimos cinco anos. O país depende fortemente de equipamentos importados, especialmente inversores e módulos fotovoltaicos, e de financiamentos estruturados via BNDES e bancos privados para viabilizar projetos de geração distribuída e usinas utility-scale. A instabilidade das empresas americanas do setor cria três riscos diretos: escassez de componentes, aumento de preços no mercado internacional e retração de investidores estrangeiros que usavam os EUA como referência de viabilidade para o setor.
A pressão sobre os preços de componentes já é visível. Com menos fabricantes americanos ativos, a dependência de produtos chineses tende a aumentar, o que coloca o Brasil numa posição ambígua: de um lado, pode se beneficiar de preços mais baixos de módulos; de outro, fica mais exposto às oscilações das tarifas comerciais entre China e EUA, que afetam indiretamente os preços praticados no mercado global.
O setor solar instalou 15,1 gigawatts de nova capacidade no Brasil em 2023, segundo dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), tornando o país o quinto maior mercado solar do mundo naquele ano. Manter esse ritmo de expansão depende, em parte, de cadeias de fornecimento globais que agora mostram sinais claros de instabilidade.

