A proposta da Rise Tower, com 2.000 metros de altura, colocaria um edifício quase três vezes mais alto do que o Burj Khalifa no mapa do mundo
A humanidade nunca parou de olhar para cima. Desde os zigurates da Mesopotâmia até os arranha-céus de aço e vidro do século XXI, a ambição vertical parece estar codificada na forma como civilizações demonstram poder econômico e capacidade técnica. Mas o que está acontecendo agora ultrapassa qualquer escala já tentada: projetos que medem não centenas, mas mais de dois mil metros de altura começaram a sair de pranchetas digitais e entrar em disputas de financiamento real.
A Rise Tower, conceito arquitetônico que circula em fóruns de engenharia e ganhou atenção global, propõe uma estrutura de exatos 2.000 metros. Para entender o que isso significa: o Burj Khalifa, em Dubai, tem 828 metros e já é considerado um feito quase impossível de replicar. A Rise Tower seria 2,4 vezes mais alta. Nenhum ser humano jamais habitou, trabalhou ou circulou em uma estrutura dessa magnitude, e os desafios de engenharia para chegar lá são tão grandes quanto a própria torre.
A Jeddah Tower, com 1.008 metros de altura, já está em construção na Arábia Saudita e representa o próximo patamar real a ser cruzado pela engenharia vertical
Antes de falar sobre o que não existe ainda, é preciso entender o que já está sendo erguido. A Jeddah Tower, na cidade de Jidá, na Arábia Saudita, será o primeiro edifício a ultrapassar o quilômetro de altura quando concluída. O projeto, desenvolvido pela firma Adrian Smith + Gordon Gill Architecture, foi iniciado em 2013, paralisado por razões financeiras e retomado em 2023. Conforme a Saudi Binladin Group, construtora responsável pela obra, a estrutura exigiu fundações com mais de 270 estacas cravadas a até 105 metros de profundidade no solo arenoso próximo ao Mar Vermelho.
A comparação entre a Jeddah Tower e o Burj Khalifa revela o salto técnico que cada 100 metros adicionais representa. O concreto usado nas colunas da Jeddah Tower tem resistência à compressão de 80 MPa, valor que supera o padrão convencional em cerca de 60%. O vento é o inimigo número um de estruturas acima de 600 metros: a pressão dinâmica sobre a fachada pode superar 3 kN por metro quadrado, exigindo geometria de planta especialmente calculada para desviar o fluxo de ar e evitar ressonância estrutural.
A Suzhou Zhongnan, planejada para 729 metros na China, ilustra por que projetos de supertorres enfrentam cancelamentos antes mesmo de sair do papel
A China é o país com mais arranha-céus acima de 300 metros no mundo, segundo o Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH). Mas nem todo projeto ambicioso sobrevive ao contato com a realidade econômica. A Suzhou Zhongnan Center, projetada para 729 metros, foi paralisada em 2019 após problemas financeiros da incorporadora Zhongnan Group. Em 2022, as autoridades locais determinaram que não aprovariam mais prédios acima de 500 metros em novas licenças, sinalizando uma mudança de postura regulatória que afeta diretamente a viabilidade de megaprojetos verticais.
O padrão se repete em outros países: edifícios com mais de 600 metros frequentemente enfrentam ciclos de captação de capital que duram mais do que uma década. O custo por metro quadrado de construção tende a crescer de forma não linear acima de certos patamares de altura, porque os sistemas de transporte vertical, estrutura e instalações prediais passam a consumir uma fração crescente da área bruta total do edifício.
Quanto mais alto o edifício, maior a proporção da área interna consumida por elevadores, estrutura e instalações, reduzindo a área comercializável a números que desafiam a viabilidade financeira
Existe um ponto de inflexão bem documentado no setor: acima de 400 metros, os núcleos de circulação vertical começam a consumir entre 30% e 40% da planta de cada andar. Nos edifícios que ultrapassam 600 metros, esse percentual pode chegar a 50% em determinados pavimentos. Isso significa que metade da área construída não gera receita direta de locação ou venda. Conforme estudos da CTBUH publicados em 2021, o custo total de construção de uma torre de 600 metros pode superar em até 4 vezes o custo de quatro torres convencionais de 150 metros com a mesma área útil total.
Os sistemas de elevadores são um capítulo à parte. A empresa KONE, que forneceu os elevadores de alta velocidade para o Merdeka 118 na Malásia, desenvolve cabines que atingem 10 metros por segundo, reduzindo o tempo de deslocamento do térreo ao topo em estruturas de 600 metros para menos de dois minutos. Mas o número de elevadores necessários para servir uma torre de 2.000 metros, com os fluxos estimados de ocupantes, tornaria inviável qualquer arranjo convencional de planta sem sistemas de sky lobby, transferências horizontais e elevadores expressos em grupos segmentados.
A construção do Merdeka 118, segundo edifício mais alto do mundo com 678,9 metros em Kuala Lumpur, revelou os desafios logísticos que tornam cada metro acima de 500 uma conquista de engenharia separada
O Merdeka 118 foi concluído em 2023 e entrou para a lista dos edifícios mais altos do mundo com 678,9 metros e 118 andares. Conforme reportagem do canal The B1M, a estrutura exigiu uma fase de fundação que levou mais de dois anos apenas para estabilizar a base em solo de Kuala Lumpur, uma cidade construída sobre terreno geologicamente complexo, com camadas de granito fraturado a profundidades variáveis. As equipes da construtora IJM Corporation executaram mais de 350 estacas de concreto, algumas atingindo 50 metros de profundidade antes de encontrar rocha firme o suficiente para sustentar a carga da torre.
O núcleo central de concreto do Merdeka 118 foi construído em paralelo com os andares periféricos, usando um sistema de fôrma trepante que avançava um pavimento a cada três a quatro dias nos momentos de maior velocidade. A estrutura teve que ser projetada para resistir aos tufões que afetam a região, com ventos que podem superar 200 km/h, e ao mesmo tempo manter o conforto dos ocupantes nos andares superiores dentro de parâmetros aceleração de no máximo 15 miliG, limite de percepção humana estabelecido pelo ISO 10137.
No Brasil, o debate sobre arranha-céus enfrenta restrições de zoneamento em São Paulo e Rio de Janeiro que limitam a altura máxima em áreas centrais a menos de 200 metros
Enquanto o Oriente Médio e o Sudeste Asiático disputam recordes verticais, o Brasil mantém uma relação diferente com a altura. Em São Paulo, o Plano Diretor Estratégico de 2014, atualizado em 2023, impõe gabaritos máximos que variam por zona, e a maior parte das áreas centrais não permite construções acima de 200 metros sem aprovação especial da Prefeitura. O edifício mais alto do país é atualmente o Infinity Tower, em São Paulo, com 172 metros e 50 andares, muito distante dos padrões de altura que dominam os debates internacionais.
Isso não significa falta de capacidade técnica. Empresas como Método Engenharia e Cyrela já demonstraram domínio sobre fundações profundas, concreto de alta resistência e sistemas de fôrma deslizante em projetos nacionais. O que falta, segundo arquitetos consultados pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), é uma combinação de demanda imobiliária concentrada, disponibilidade de terrenos adequados e marco regulatório que permita projetos acima de 300 metros em zonas específicas.
A corrida pela torre mais alta do mundo esconde um cálculo econômico que raramente fecha no prazo originalmente previsto pelos incorporadores
O Burj Khalifa custou aproximadamente 1,5 bilhão de dólares para ser construído, conforme dados da Emaar Properties. A Jeddah Tower, quando retomada em 2023, tinha estimativa de custo total revisada para cerca de 1,2 bilhão de dólares, mas analistas do setor ouvidos pela Reuters estimam que o valor final pode superar 2 bilhões de dólares com os atrasos acumulados. Uma torre hipotética de 2.000 metros, nas condições atuais de mercado, consumiria recursos que poucos países conseguiriam mobilizar para um único edifício sem contrapartida econômica clara.
O dado mais concreto sobre a viabilidade real dessas estruturas vem do próprio Burj Khalifa: ao ser inaugurado em 2010, cerca de 825 dos seus 900 apartamentos residenciais estavam desocupados, segundo reportagem da BBC. O prédio levou anos para atingir taxas de ocupação que justificassem o investimento. Para uma torre de 2.000 metros, o mercado que precisaria existir para preencher essa estrutura ainda não foi demonstrado em nenhuma análise econômica independente publicada até hoje.
Com tantos projetos grandiosos paralisados, cancelados ou revisados para baixo, a pergunta que fica é: a humanidade está perseguindo altura por necessidade real de espaço urbano ou apenas para gravar o próprio nome em um recorde que não vai durar mais do que uma década? Deixe sua opinião nos comentários.

