O percentual de famílias brasileiras com algum tipo de dívida atingiu 80,4% em maio de 2025, o maior nível já registrado na série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O cartão de crédito lidera as modalidades mais utilizadas, concentrando boa parte do estoque de dívidas das famílias em uma das linhas de maior custo do mercado financeiro brasileiro. Para a indústria, o dado não é apenas um termômetro do consumo, é um aviso sobre a trajetória da demanda interna por bens manufaturados.
Consumo comprimido, indústria sob pressão
Quando as famílias destinam parcela crescente de sua renda ao pagamento de dívidas de curto prazo, o espaço para compras de eletrodomésticos, móveis, vestuário e outros produtos industrializados encolhe. Esse mecanismo é conhecido e documentado: crédito rotativo caro compromete a renda disponível e derruba a demanda por bens de maior valor agregado. Com a taxa Selic ainda em patamar elevado, o crédito ao consumidor não deve baratear no curto prazo, o que torna o cenário de compressão de demanda um problema persistente para o setor produtivo.
O impacto não se limita ao consumidor final. Micro, pequenas e médias empresas industriais também enfrentam crédito privado caro para financiar máquinas, estoques e capital de giro. Com spreads bancários elevados, boa parte dessas empresas simplesmente não contrata crédito, o que compromete a capacidade produtiva e a competitividade.
O papel do crédito público na manutenção dos investimentos
É nesse contexto que linhas como o BNDES Finame, o BNDES Crédito e o Cartão BNDES ganham relevância prática. O Cartão BNDES, voltado especificamente para micro e pequenas empresas, oferece taxas subsidiadas para aquisição de máquinas, equipamentos e insumos nacionais, funcionando como alternativa viável quando o crédito bancário tradicional se torna inacessível. Em 2024, o BNDES desembolsou R$ 112 bilhões no total, com crescimento expressivo nas contratações de empresas de menor porte.
A CNC não projeta reversão rápida do endividamento das famílias. Com 80,4% delas comprometidas com alguma dívida e o cartão de crédito como principal instrumento, a trajetória da inadimplência depende de queda efetiva dos juros, o que não está no horizonte imediato. Para o setor industrial, isso significa que a demanda interna seguirá pressionada ao longo de 2025, exigindo que as empresas busquem financiamento produtivo fora do crédito privado convencional para sustentar investimentos e evitar perda de capacidade.
A inadimplência das famílias brasileiras ficou em 29,5% em maio, segundo a mesma pesquisa da CNC, percentual que inclui consumidores com contas em atraso por mais de 90 dias.

