O barril de petróleo tipo Brent voltou a superar US$ 100 pela primeira vez desde 2022 após o presidente norte-americano Donald Trump anunciar, em 12 de abril de 2026, o bloqueio militar do Estreito de Ormuz como medida de pressão ao Irã. A passagem, localizada entre o Irã e a península arábica, responde pelo escoamento de cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo, e qualquer ameaça à sua operação provoca reação imediata nos mercados de commodities energéticas. Para a indústria brasileira, a alta chega em momento de margens já comprimidas por juros elevados.
Derivados, insumos e câmbio: o triplo vetor de pressão
O Brasil produz petróleo em escala relevante, principalmente pelo pré-sal operado pela Petrobras, mas ainda depende de importações de derivados refinados e de insumos petroquímicos como plásticos, resinas, fertilizantes e combustíveis industriais. O encarecimento do barril eleva diretamente os custos de setores como o químico, o de alimentos e bebidas, o de transportes e a construção civil. A transmissão não é imediata, mas tende a se acelerar conforme os estoques existentes são consumidos e novos contratos de fornecimento são firmados.
Há um segundo vetor de pressão que opera em paralelo. A deterioração das perspectivas econômicas globais provocada pela escalada do conflito com o Irã, conforme apontado pelo Financial Times na mesma data, aumenta a aversão ao risco nos mercados financeiros internacionais. Esse movimento costuma desvalorizar moedas de economias emergentes, incluindo o real, tornando ainda mais cara a importação de energia, equipamentos e matérias-primas cotadas em dólar.
Petrobras ganha, governo pressiona, indústria calcula
A Petrobras, maior empresa da América Latina por valor de mercado, tende a se beneficiar no curto prazo da alta das cotações. Receitas maiores por barril produzido reforçam o caixa da estatal, mas esse ganho não chega diretamente à cadeia industrial. O governo federal, por sua vez, deverá enfrentar pressão política intensa para segurar repasses nos preços dos combustíveis ao consumidor final e à indústria, repetindo o dilema que marcou o ciclo de alta de 2021 e 2022, quando a defasagem de preços custou bilhões à companhia e gerou conflito aberto entre a diretoria da empresa e o Palácio do Planalto.
Gestores industriais precisarão revisar seus planejamentos de compra de energia e contratos de fornecimento de insumos nas próximas semanas. Estratégias de hedge cambial ganham relevância em um ambiente em que tanto o preço do petróleo quanto a taxa de câmbio operam em direção desfavorável ao comprador brasileiro. A última vez que o Brent esteve acima de US$ 100 por período prolongado, em 2022, o IPCA industrial acumulou alta superior a 9% no ano, segundo dados do IBGE.

