As montanhas Fanjing, no sudoeste da China, abrigam uma das construções em rocha mais ousadas já executadas em terreno vertical com mais de 1.500 metros de desnível

Há obras que existem para conectar cidades, escoar produção ou transportar mercadorias. E há obras que existem porque o ser humano decidiu, deliberadamente, vencer uma parede de rocha. A passarela suspensa das montanhas Fanjing, localizada na província de Guizhou, no sudoeste da China, pertence à segunda categoria. Instalada sobre fendas e cornijas naturais a mais de 1.500 metros acima do nível do solo, ela não foi construída apesar do terreno impossível, mas exatamente por causa dele.
O número que mais impacta não é a altitude, mas a combinação dela com a escala de uso: estima-se que mais de 10 mil turistas por ano percorrem o trajeto, apoiados sobre estruturas metálicas fixadas diretamente na rocha com tirantes e perfis soldados. Cada passo dado sobre essa passarela é sustentado por decisões de engenharia tomadas em condições que poucos laboratórios conseguem simular.
A fixação das passarelas em rocha viva exige ancoragem com tirantes de aço protendidos que podem atingir 6 metros de profundidade na parede da montanha
O maior desafio construtivo de uma passarela em penhasco não é o peso da estrutura, mas a variabilidade da rocha. Ao contrário de uma fundação em solo, onde ensaios geotécnicos padronizados guiam o projeto, a rocha em ambiente de montanha pode apresentar fraturas, bolsões de umidade e estratificação irregular a cada metro perfurado. Nas montanhas Fanjing, cuja geologia é composta principalmente por quartzito e arenito metamórfico com mais de 1,4 bilhão de anos de formação, as equipes precisaram adaptar o projeto de ancoragem ponto a ponto.
A técnica empregada combina ancoragem passiva e ativa. Os tirantes passivos são barras de aço cimentadas em furos perfurados na parede, que funcionam como pinos de contenção. Já os tirantes ativos recebem protensão após a cimentação, criando uma força de compressão permanente que “aperta” a estrutura contra a rocha, em vez de apenas encostá-la. Essa diferença é fundamental: uma estrutura apenas apoiada pode oscilar e descolar com vibrações e variações térmicas; uma estrutura protendida resiste porque está permanentemente carregada contra a base sólida.
A variação de temperatura entre -10°C no inverno e 35°C no verão obriga os engenheiros a projetar juntas de dilatação a cada 8 a 12 metros de passarela contínua

Aço se dilata. Esse é um dado físico que qualquer aluno de ensino médio aprende, mas que engenheiros de estruturas precisam quantificar com precisão milimétrica quando a estrutura fica exposta ao tempo em altitudes acima de 1.000 metros. Para o aço carbono comum, a dilatação linear é de aproximadamente 12 milímetros por metro para cada 100°C de variação de temperatura. Em uma passarela de 100 metros de extensão submetida a uma variação de 45°C entre estações, isso representa mais de 5 centímetros de movimentação linear, o suficiente para empenar conexões rígidas e arrancar parafusos de ancoragem.
A solução padrão são as juntas de dilatação: interrupções controladas no perfil da passarela que permitem o movimento relativo entre segmentos sem transmitir esforço. Em ambientes de altitude extrema, onde a radiação solar incide diretamente sobre as superfícies metálicas e pode elevar a temperatura da chapa em até 20°C acima da temperatura do ar, o espaçamento entre juntas é reduzido para garantir margem de segurança. Nas passarelas das montanhas Fanjing, o projeto visual foi pensado para ocultar essas juntas dentro do piso gradeado, mantendo a estética sem comprometer a função estrutural.
O piso em grelha metálica galvanizada resolve simultaneamente três problemas: drenagem da chuva, redução de peso próprio e prevenção de acúmulo de gelo
A escolha do tipo de piso em uma passarela de altitude não é estética. É uma decisão de engenharia com consequências diretas sobre segurança operacional. Pisos fechados, como chapas planas ou madeira, retêm água de chuva e formam lâminas de gelo em temperaturas negativas, tornando a superfície escorregadia. Em uma passarela a 1.500 metros, onde um escorregão pode significar uma queda no abismo, esse risco é inaceitável.
A grelha metálica galvanizada, com abertura típica de 30 a 40 milímetros entre barras, permite que a água escore imediatamente, elimina pontos de acúmulo de neve compactada e reduz a área de superfície exposta ao vento, o que diminui a carga dinâmica sobre as ancoragens. O processo de galvanização a quente, com imersão do perfil em zinco fundido a aproximadamente 450°C, cria uma camada protetora de 45 a 85 micrômetros que resiste à corrosão mesmo em ambientes com alta umidade e neblina constante, como é o caso das montanhas Fanjing, cobertas por nuvens em mais de 200 dias por ano.
A China possui mais de 2.300 pontes e passarelas de vidro e aço em operação turística, número que triplicou entre 2015 e 2023 e gerou um setor construtivo especializado

O que aconteceu nas montanhas Fanjing não é um caso isolado. A China transformou a engenharia de estruturas em altitude em uma indústria turística de escala industrial. Segundo dados da Administração Nacional de Turismo da China, o país conta com mais de 2.300 instalações desse tipo em operação, incluindo passarelas suspensas, pontes de vidro e trilhas cravadas em penhasco. O crescimento foi tão acelerado que o governo precisou estabelecer, em 2017, uma regulamentação específica para certificação estrutural dessas obras, após relatos de incidentes envolvendo passarelas improvisadas em regiões menos fiscalizadas.
Esse volume de construção criou um mercado especializado de fornecedores de ancoragem, perfis galvanizados e sistemas de proteção individual para trabalhadores em altura. Empresas como a Zhejiang Zhongda Steel Structure e a Guangzhou Lihe Steel Group passaram a oferecer kits modulares pré-projetados para passarelas de altitude, reduzindo o tempo de instalação em campo de semanas para dias. A modularização foi possível porque as normas construtivas passaram a padronizar os perfis de carga e os critérios de ancoragem mínima, algo que não existia antes de 2017.
No Brasil, obras semelhantes em morros e serras enfrentam a NBR 6118 e a NR-35, que exigem certificação específica para trabalho em altura acima de 2 metros e ancoragem em rocha verificada por laudo geotécnico
A engenharia de passarelas em altitude não é exclusividade da Ásia. O Brasil possui trechos comparáveis na Serra Gaúcha, no Parque Nacional da Chapada Diamantina e no Pico do Itambé, em Minas Gerais, onde trilhas com estruturas metálicas fixadas em rocha recebem visitantes regularmente. A diferença está no volume de investimento e na formalização dos projetos.
Pela NBR 6118, que regula projetos de estruturas de concreto, e pelas diretrizes da ABNT NBR 15696 para estruturas metálicas, qualquer intervenção em rocha com função estrutural exige laudo geotécnico emitido por profissional habilitado pelo CREA. Já a NR-35, norma regulamentadora do Ministério do Trabalho para trabalho em altura, impõe certificação obrigatória para todos os trabalhadores envolvidos na instalação e manutenção dessas estruturas acima de 2 metros, com reciclagem periódica a cada dois anos. O descumprimento pode gerar interdição imediata da obra e multas que chegam a R$ 6.700 por infração constatada em fiscalização.
A passarela das montanhas Fanjing sintetiza um campo da engenharia civil onde geologia, metalurgia e normas de segurança precisam funcionar em sincronia perfeita a cada metro construído. A estrutura principal foi executada com mais de 80 toneladas de aço galvanizado, fixada por 340 pontos de ancoragem em rocha e dimensionada para suportar simultaneamente 300 pessoas em movimento, carga equivalente a 24 toneladas distribuídas sobre um piso suspenso no vácuo a 1.500 metros de altitude.

