Do interior catarinense às passarelas internacionais: como a engenharia da Kohll levou a maquiagem blindada do Brasil ao mundo

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A demanda por produtos que resistam ao calor, suor e longas jornadas sempre foi crítica no mercado brasileiro de cosméticos, especialmente devido ao clima e à diversidade de tons de pele. Este contexto criou um ambiente em que a performance da maquiagem se tornou requisito básico para aceitação no mercado. É nesse cenário que a Kohll, fundada em Brusque, emergiu com a proposta de “maquiagem blindada” — conceito centrado em fórmulas de alta resistência e usabilidade profissional.

O principal desafio enfrentado estava na ausência de bases nacionais premium com acabamento, perfume e apresentação compatíveis com padrões internacionais. A maioria dos cosméticos disponíveis contava com embalagens simples e pouco investimento em percepção de luxo. Além disso, as fabricantes locais raramente apostavam em matérias-primas diferenciadas ou ingredientes de alto custo, refletindo-se em produtos menos desejados para exportação e consumo de luxo.

Ao optar por investir em pesquisa e novas fórmulas, a Kohll implementou parcerias com fabricantes especializados e ampliou sua estrutura interna. O resultado foi o desenvolvimento de uma linha de 69 SKUs, com ênfase em detalhes avançados de embalagem e fragrância — movimentando o faturamento da empresa de R$ 17 milhões em 2025 para uma expectativa de R$ 27 milhões em 2026. Além disso, a companhia emprega 66 colaboradores internos, todos envolvidos em processos modernizados por tecnologia embarcada e testes rigorosos de durabilidade.

A escolha por investir em estrutura própria e firmar contratos de longo prazo com fabricantes terceirizados criou um ambiente de crescimento estável. A construção da nova planta fabril, com 2.300 metros quadrados e R$ 6 milhões investidos, não resulta na verticalização total da produção, mas sim em um modelo de integração com parceiros que permite aumentar o volume sem perder agilidade ou diversidade de portfólio.

Esse arranjo operacional foi motivado pelas limitações iniciais de capital, que dificultavam a importação em grande escala de ingredientes exclusivos. Ao negociar contratos de fornecimento com vigência de 10 anos, a empresa viabilizou aportes em maquinário moderno por parte dos parceiros, garantindo capacidade instalada e regularidade no fornecimento sem descartar a flexibilidade para inovar em SKUs e texturas.

A decisão de manter a produção no Brasil, mesmo durante a internacionalização, reflete a busca pela autenticidade nacional e pela adaptabilidade dos produtos às condições do mercado doméstico. Este posicionamento resultou em expansão internacional significativa: hoje, 20% do faturamento provêm de vendas para o exterior, em mais de 2.800 pontos de venda, com plano de exportação já iniciado para Dubai e distribuição em países da Ásia.

O conceito de “maquiagem blindada” materializou-se em fórmulas específicas que suportam trocas rápidas de roupa sem transferência — recurso fundamental na rotina de tops models em grandes desfiles. Os produtos ganharam destaque internacional também por manterem aroma agradável sem recorrer a fragrâncias enjoativas ou excessivamente sintéticas, sendo desenhados para resistir ao calor intenso brasileiro.

A engenharia dessas fórmulas buscou ingredientes de alto desempenho, adaptando o portfólio à vasta variedade de tons de pele do país. A parceria com maquiadores e o patrocínio à seleção de Nado Artístico da CBDA demandou testes de resistência à água, resultando em linhas personalizadas para atletas de alto rendimento — uma solução técnica exigente, que elevou o padrão dos cosméticos nacionais a níveis comparados aos internacionais.

Um trade-off dessa abordagem é o preço: bases nacionais de R$ 200 tornaram-se viáveis a partir desse salto de qualidade, mas o posicionamento premium restringe o público consumidor. O investimento em embalagens sofisticadas e matérias-primas de ponta também implica ciclos maiores de desenvolvimento e reposicionamento frequente da linha de produtos.

A entrada nas semanas de moda de Paris e Nova York foi resultado de ações orgânicas e presença ativa junto a comunidades de maquiadores. O reconhecimento no mercado externo solidificou o atributo técnico da maquiagem blindada como símbolo da beleza agregada à engenharia de produto. O sucesso levou ao aumento da demanda e ao início do processo de internacionalização, que inclui estratégias para atuação em Dubai como hub para escala na Ásia.

A integração com a indústria esportiva, por meio da CBDA, consolidou a potência tecnológica da marca diante de outros mercados de alto desempenho, como o dos cosméticos waterproof. O modelo cooperado entre fábrica própria e parceiros terceirizados, sustentado por acordos de investimento cruzado, garantiu flexibilidade para ajustar linhas específicas conforme tendências e sazonalidade do setor de beleza global.

O percurso da Kohll sinaliza uma inflexão no padrão do setor nacional, ao adotar processos de desenvolvimento e fabricação comparáveis aos hub internacionais sem abandonar a fabricação local. Os aportes em capacidade, tecnologia e contratos de colaboração ilustram um caminho para marcas brasileiras acessarem mercados globais, valorizando particularidades do mercado interno.

A trajetória demonstra que problemas de capital, estrutura e ausência de tradição em cosméticos premium podem ser superados com engenharia de processos, alianças estratégicas e integração produtiva. O impacto se estende para fora da marca, criando precedente para empresas que buscam crescer em mercados sofisticados sem perder o vínculo com a identidade nacional.

Caio
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Caio é empreendedor e fundador do Galpão das Máquinas, a maior plataforma online de compra, venda e divulgação de equipamentos industriais no Brasil. Com mais de 20 de experiência prática no setor de máquinas e equipamentos, atua diariamente acompanhando fabricantes, importadores e revendedores.

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