No cenário do barracão da Beija-Flor de Nilópolis, estruturas metálicas dividem espaço com isopor, serragem e latas de tinta. Entre os materiais, uma impressora 3D de 2,5 metros de altura começou a transformar o processo de fabricação das esculturas que vão à Marquês de Sapucaí. A aposta representa cerca de 10% de todos os elementos cenográficos que estarão na avenida pela escola carnavalesca no próximo desfile do Grupo Especial.
A motivação concreta para adotar a impressão 3D está nos desafios de custo, padronização e sustentabilidade enfrentados na produção manual. Tradicionalmente, criar peças volumosas demandava muitos dias de mão de obra e resultava em significativo desperdício de material, especialmente quando era preciso replicar o mesmo item diversas vezes. Além disso, questões ambientais e a necessidade de reduzir resíduos se tornaram prioritárias diante da escala dos desfiles.
A Escola optou por investir na tecnologia FDM (modelagem por deposição fundida), considerada robusta para esculturas de grande porte, após dois anos de testes no barracão. O método consiste em derreter filamentos plásticos, depositando-os camada por camada até formar o objeto tridimensional. Com isso, peças que antes exigiam até quatro dias de trabalho manual podem agora ficar prontas em um dia, considerando altura de até 1,60 metro para cada segmento impresso. Para itens maiores que a área útil da impressora, a produção é modular e exige posterior colagem.
Os técnicos escolheram o ABS como material central — um tipo de plástico comum na indústria automotiva, conhecido por sua resistência ao calor e umidade. O ABS apresenta propriedades que reduzem o risco toxicológico frente a outros métodos, como resinas, e sua reciclabilidade permite que as esculturas sejam trituradas e reutilizadas como matéria-prima nos anos seguintes. A escolha buscou minimizar impactos ambientais, ao lado da redução de desperdício impulsionada pela manufatura sob demanda.
Em termos de engenharia, a decisão de desenvolver a máquina dentro do próprio barracão garantiu autonomia nas adaptações de capacidade — fundamental para ajustes de volume e velocidade segundo as necessidades do projeto cenográfico.
Durante a preparação para o desfile, o processo por impressão 3D evidenciou uma forte redução de custos diretos e indiretos: menos horas de trabalho humano por peça, economia de material, incremento na padronização das partes e flexibilidade para alterar projetos até momentos próximos do evento. A produção também permitiu vencer limitações de tamanho ao modular elementos e, posteriormente, colá-los — técnica já familiar a quem manipula blocos de isopor.
Como trade-off, mesmo com a alta produtividade da máquina, há limitação relacionada à velocidade máxima: grandes esculturas demandam várias horas de execução ininterrupta, e o acabamento manual continua indispensável. O resultado pronto da impressora apresenta superfícies cruas, precisando de pintura, adornos e intervenções dos artesãos.
A chegada deste recurso não elimina o trabalho tradicional; as esculturas deixam a máquina sem acabamento final e a expertise dos artesãos segue vital para conferirem cor, textura e adereços ao objeto. O processo digital demanda uma modelagem inicial detalhada em software, feita por profissionais especializados, similar ao escultor que desenha no isopor, permitindo manter a expressão artística na composição das alegorias.
A adoção da impressão 3D, portanto, potencializa a capacidade criativa ao mesmo tempo que assegura maior rigor geométrico e repetibilidade — especialmente útil para máscaras, ornamentos e peças decorativas em série, que imitam materiais como cerâmica e barro.
Assim como a incorporação de fibra de vidro, estruturas metálicas leves e sistemas de iluminação, a aplicação da impressora 3D representa avanço técnico com potencial de disseminação para outras agremiações. O atual plano prevê, caso comprovada a viabilidade, a disponibilização da máquina para todas as escolas do Grupo Especial, centralizando a produção de peças cenográficas e ampliando o acesso à inovação na Cidade do Samba.
O impacto não se restringe ao espetáculo visual ou à redução de custos — há um legado operacional que pode modificar como se planeja e executam desfiles monumentais, revelar novas funções profissionais (de modeladores a operadores de impressora) e servir de referência para outros setores criativos. Ao integrar tradição com tecnologia, o Carnaval do Rio consolida seu lugar como espaço de experimentação em larga escala, abrindo caminho para novos paradigmas técnicos em manifestações culturais.

