O Carnaval de Salvador atua como cenário para um experimento de integração produtiva e eficiência ambiental. Durante a festa, catadores organizados em 13 Centros de Apoio recebem, separam e pesam milhares de quilos de materiais recicláveis recolhidos nas principais rotas da folia. Esse processo importa porque, sem controle técnico na coleta, resíduos como alumínio, PET e plásticos permanecem em vias públicas ou acabam em aterros, ampliando impactos ambientais e dificultando geração de renda.
O grande desafio era evitar a dispersão e a informalidade na coleta e destinação dos recicláveis do Carnaval, problema que envolvia tanto a falta de pontos de apoio para triagem quanto a ausência de rotas produtivas claras. Antes da estruturação das Centrais, centenas de catadores operavam sem controle de pesagem e destino das latas, PETs e plásticos, o que diminuía o valor econômico e o potencial de reciclagem.
O projeto “Meu Corre Decente”, executado pela Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia com apoio de órgãos ambientais, responde a essa limitação. Foram implantados 13 Centros de Apoio distribuídos nos circuitos Barra-Ondina, Campo Grande, Cajazeiras, Nordeste de Amaralina e Pelourinho. Cada central recebeu balanças certificadas, áreas cobertas para armazenamento e pessoal treinado para a triagem e classificação dos resíduos.
Nos dois primeiros dias do Carnaval, os Centros de Apoio registraram a triagem de 33.579 kg de recicláveis, sendo 22.153 kg de latas de alumínio, 7.364 kg de PET e 4.062 kg de outros plásticos. Para o alumínio, o ciclo é fechado: cerca de 95% a 98% das latinhas brasileiras são recicladas, retornando para a indústria como nova matéria-prima em poucas semanas. O PET segue para transformação em embalagens e produtos plásticos, onde a lei obriga a reincorporação de pelo menos 22% de material reciclado nas novas embalagens.
A escolha pela instalação de pontos de coleta próximos ao fluxo dos foliões reduz tempo e custo logístico, evitando o transporte desnecessário de resíduos misturados e favorecendo a pureza do material recolhido. Por outro lado, a limitação está na dependência da adesão dos catadores aos pontos oficiais e na necessidade de estímulo contínuo para manter o processo ordenado durante todo o evento.
Com a infraestrutura dos Centros e a formalização do fluxo de venda, centenas de catadores passaram a acessar meios para triagem eficiente, controle de pesagem e negociação coletiva dos preços, agregando maior valor econômico à coleta. Estrutura adequada significa armazenagem longe da chuva, controle por balanças e critérios técnicos claros de classificação. O apoio garantiu não apenas a melhoria da renda individual, mas também a permanência do beneficiário formalizado em políticas de inclusão socioprodutiva.
Os Centros oferecem ainda pontos de hidratação, descanso e suporte, reduzindo riscos ocupacionais. No modelo anterior, a instabilidade do trabalho e o improviso resultavam em perda de valor do material, além de prejudicar a saúde dos trabalhadores envolvidos.
A estruturação da coleta e triagem durante o Carnaval representa mais que uma resposta imediata; estabelece um padrão técnico para gestão urbana de resíduos em eventos massivos. O ganho não se restringe à quantidade de lixo retirada das ruas, mas também à produção de dados confiáveis sobre fluxos, pesos e eficiência, permitindo o desenho de novas políticas públicas baseadas em número e não apenas percepção. O legado tecnológico e operacional do Carnaval de Salvador pode servir como referência em escala nacional para outras festas populares ou eventos de grande porte.

