O avanço no Projeto Natureza da CMPC redefine o cenário industrial e logístico da celulose no Brasil, estabelecendo um novo polo produtivo entre Barra do Ribeiro e Rio Grande. O impacto direto está na geração de capacidade industrial e no fortalecimento da cadeia de exportação, fatores essenciais para garantir competitividade diante de oscilações no mercado global de celulose de fibra curta.
O desafio operacional girava em torno da necessidade de integrar produção, logística portuária e abastecimento florestal sustentável para suportar uma unidade de grande porte. A solução da CMPC surgiu a partir do planejamento simultâneo das obras industriais e do terminal portuário próprio (TUP), associado a contratos antecipados para construção de embarcações dedicadas. Essa estratégia visa evitar gargalos logísticos e dependências externas, condição crítica para o cumprimento do cronograma de entrada em operação até o segundo semestre de 2029.
A empresa assinou a concessão do terreno e início das obras para o terminal privado no Porto de Rio Grande, prevendo investimento de R$ 3 bilhões em logística — parcela do total estimado de R$ 24 bilhões para a planta de Barra do Ribeiro. A conclusão do terminal está estimada para meados de 2029, com a fábrica iniciando operação dois meses depois. Esse alinhamento reduz riscos de atrasos logísticos comuns em projetos industriais de larga escala.
Tal configuração permite à CMPC assegurar a exportação autônoma de 2,5 milhões de toneladas anuais de celulose de eucalipto. A iniciativa depende apenas da última etapa de aprovações ambientais e do conselho da empresa, previstas para serem superadas até o meio do ano.
No aspecto de suprimento, a CMPC já mantém estoque florestal plantado suficiente para abastecer ambas as fábricas no Brasil por cinco anos. Junto da unidade em Guaíba, que opera com capacidade anual de 2,4 milhões de toneladas, o novo complexo eleva o potencial produtivo total do grupo, aproveitando a sinergia operacional entre os polos.
Esse estoque antecipado de matéria-prima mitiga riscos associados à volatilidade do setor florestal, permitindo planejar a produção de acordo com cenários de demanda e disponibilidade de mercado — especialmente relevante dado o ciclo de crescimento do eucalipto e eventuais oscilações climáticas.
O plano inclui a formação de uma nova frente de trabalhadores qualificados para o setor. O total de colaboradores diretos e indiretos, atualmente em 6.500, deverá superar 10 mil no início das operações em 2029. O cronograma de capacitação é construído em parceria com entidades regionais de ensino técnico do Rio Grande do Sul, antecipando as competências necessárias e reduzindo o impacto da escassez de mão de obra especializada.
Esse movimento aborda o histórico desafio de contratação em empreendimentos industriais de grande porte, buscando garantir eficiência produtiva desde o comissionamento — um diferencial competitivo para implantação e ramp-up da unidade.
O mercado global de celulose passou por cortes e flutuações acentuadas, especialmente em 2025. O preço da celulose de fibra curta na China oscilou de US$ 540 por tonelada no começo do ano para US$ 495 em julho, com recuperação para US$ 560 ao final do período. O aumento da oferta global, a entrada de nova planta da Suzano e a integração crescente das empresas chinesas alteraram a dinâmica competitiva, enquanto tarifas dos EUA impuseram desafios para a exportação.
Apesar da recente recuperação, o patamar persiste como obstáculo para produtores em mercados maduros, acelerando fechamentos de fábricas menos eficientes na Europa e Estados Unidos. O desenho estratégico da CMPC, aliando escala, integração logística e disponibilidade de matéria-prima própria, reposiciona o grupo em cenário internacional volátil.
O legado do projeto deve incluir não apenas nova capacidade produtiva, mas também lições estruturais sobre integração operacional e antecipação de gargalos — parâmetros com potencial para redefinir futuras expansões industriais no país.

