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Home Plástico Extrusora de plástico

Como fabricar tubos de PVC: tudo oque você precisa saber [para lucrar]

por Marcelo Fraga
13 de março de 2026
em Extrusora de plástico
como fabricar tubos de pvc

como fabricar tubos de pvc

A produção de tubos de PVC no Brasil movimenta mais de 600 mil toneladas de resina por ano, segundo dados da Braskem referentes ao mercado de PVC-S nacional. Toda essa resina passa, obrigatoriamente, por uma extrusora de plástico, a máquina que transforma o composto em pó ou granulado numa peça contínua, com diâmetro e espessura controlados ao milímetro. Entender esse processo é útil tanto para o engenheiro que especifica equipamentos quanto para o técnico que opera a linha, passando pelo gestor que precisa justificar o investimento e pelo estudante que encontrou este texto antes da prova.

A história do PVC e dos tubos: de acidente de laboratório a 40% da construção civil

O cloreto de polivinila foi sintetizado pela primeira vez em 1872 por Eugen Baumann, na Alemanha, mas a substância branca e quebradiça que ele obteve pareceu inútil. A segunda síntese, por Ivan Ostromislensky em 1912, também ficou sem aplicação prática. O problema era o mesmo: o polímero decompunha com facilidade ao calor e à luz, liberando ácido clorídrico e escurecendo rapidamente.

A virada veio em 1926, quando Waldo Semon, químico da B.F. Goodrich, tentava criar uma borracha sintética e misturou PVC com solventes de alto ponto de ebulição. Acidentalmente, descobriu que a mistura formava um gel flexível ao esfriar. Isso foi o princípio dos plastificantes, e abriu o caminho para tornar o PVC processável industrialmente. A patente americana 1.929.453, concedida em 1933, descrevia exatamente esse composto plastificado.

Tubos de PVC rígido (sem plastificante, ou PVC-U) começaram a ser instalados na infraestrutura europeia durante a Segunda Guerra Mundial, em parte porque os metais estavam sendo reservados para uso bélico. A Alemanha e a Holanda instalaram redes de água potável com esses tubos entre 1940 e 1945, algumas ainda em operação nos anos 1990, o que deu ao material reputação de durabilidade.

No Brasil, a produção doméstica de PVC começou em 1958, na Solvay (então Álcalis Carbeto), no Complexo Petroquímico de Capuava (SP). O crescimento explosivo veio nos anos 1970, junto com a expansão dos programas habitacionais do BNH. Em 1975, a Tigre já produzia tubos em linhas de extrusão contínua no padrão que se tornaria referência no País.

1872

Primeira síntese

Eugen Baumann obtém PVC pela primeira vez, mas o material quebradiço e termicamente instável não encontra aplicação.

1926

Descoberta dos plastificantes

Waldo Semon, na B.F. Goodrich, mistura PVC com dibutil ftalato e obtém um gel flexível. A base dos compostos processáveis está criada.

1940–45

Primeiras redes de água em PVC-U

Alemanha e Holanda instalam tubulações de água potável com PVC rígido durante a guerra, substituindo metais escassos.

1958

Produção nacional no Brasil

Solvay inicia produção de PVC-S em Capuava (SP). O insumo deixa de ser importado para a indústria brasileira de transformação.

1975–

Escala industrial brasileira

Expansão acelerada pelo BNH. A Tigre implanta linhas de extrusão contínua que definem o padrão produtivo nacional até hoje.

PVC: o que a sigla significa e por que existem tipos tão diferentes

PVC é a abreviação de polyvinyl chloride (cloreto de polivinila). A molécula básica é simples: etileno + cloro, polimerizado por suspensão (PVC-S), emulsão (PVC-E) ou massa (PVC-M). Para tubos de pressão e esgoto, o processo predominante no Brasil é a suspensão, que produz grãos porosos com K-value (índice de viscosidade) entre 57 e 70 dependendo da aplicação.

O PVC puro, sem aditivos, não pode ser processado: ele se degrada antes de amolecer o suficiente para fluir. Por isso, toda formulação de tubo começa pela adição de estabilizantes térmicos. Até o início dos anos 2000, o estabilizante padrão no Brasil era à base de chumbo (tribasic lead sulfate, TBLS). Desde 2007, os fabricantes brasileiros de grande porte migraram para sistemas de cálcio-zinco (Ca/Zn), seguindo restrições da diretiva europeia RoHS e pressão de clientes da construção civil.

As variações de PVC para tubos mais comuns são:

PVC-U (rígido não plastificado)

Usado em tubos de esgoto, água fria e condutos elétricos. Resistência à tração entre 45 e 55 MPa. Temperatura máxima de serviço contínuo: 60°C.

Norma: ABNT NBR 5647 / 5688

PVC-C (clorado)

PVC pós-clorado com teor de cloro de 63–69% (contra 57% do PVC-U). Temperatura de serviço até 93°C. Usado em tubos de água quente e sistemas de sprinkler.

Norma: ASTM D2846 / ISO 15877

PVC-P (plastificado)

Com teor de plastificante entre 25 e 45 phr. Flexível, usado em mangueiras, tubos de irrigação e eletrodutos corrugados.

Dureza Shore A: 55–85

PVC de baixo impacto (modificado)

PVC-U com adição de modificadores de impacto (CPE, MBS ou acrílico) para uso em tubos de esgoto de diâmetros maiores, onde a resistência a impacto no campo é crítica.

Resistência ao impacto Izod: >20 kJ/m²

O processo de fabricação: como funciona a extrusão de tubos de PVC

A extrusão é um processo contínuo: o material entra sólido numa extremidade da máquina e sai como um tubo na outra. O coração do equipamento é o parafuso (ou rosca), que gira dentro de um cilindro aquecido, transporta o material, aplica pressão e promove a fusão. Para tubos de PVC, existem duas configurações dominantes: extrusora de parafuso simples e extrusora de parafuso duplo corrotante ou contrarrotante.

Extrusora simples vs. duplo parafuso

  • Parafuso simples: Opera com composto já formulado (pellets ou dry-blend pré-misturado). Mais simples de operar, menor custo inicial. Velocidade de parafuso típica: 20–60 rpm para PVC.
  • Duplo parafuso contrarrotante: Pode processar diretamente o dry-blend (pó seco). Maior capacidade de homogeneização, menor tempo de residência (menos degradação térmica). Preferido por fabricantes de médio e grande porte.
  • Duplo parafuso corrotante: Menos comum para PVC-U rígido por gerar mais atrito. Usado quando o composto tem cargas especiais ou quando a mistura precisa ser muito intensa.

Etapa 1: formulação e mistura do composto

Antes de entrar na extrusora, a resina PVC precisa ser misturada com os aditivos. Em linhas industriais, isso acontece num misturador de alta rotação (Henschel ou similares) seguido de um misturador de resfriamento. O ciclo padrão para um dry-blend de tubo de esgoto é: adicionar PVC a 30°C, aquecer com fricção até 110–115°C adicionando os aditivos em sequência específica, depois transferir para o misturador frio e resfriar até 40–45°C antes de armazenar.

A sequência de adição importa. O estabilizante entra primeiro porque precisa adsorver na superfície dos grãos de PVC ainda frios. O lubrificante externo (normalmente cera de polietileno ou ácido esteárico) entra por último, porque se adicionado cedo pode encapsular o grão e impedir a absorção dos outros aditivos.

Uma formulação típica para tubo de esgoto (DN 100, NBR 5688) contém, por 100 partes de resina (phr):

Componente Função Dosagem típica (phr)
PVC-S K-57/67 Resina base 100
Estabilizante Ca/Zn Estabilidade térmica 2,0–3,5
Lubrificante interno (cera PE) Reduce fusão prematura 0,5–1,0
Lubrificante externo (est. de Ca) Deslizamento na matriz 0,8–1,5
Carbonato de cálcio (carga) Custo e rigidez 5–15
Dióxido de titânio (TiO₂) Opacidade e proteção UV 0,5–1,5
Modificador de impacto (CPE) Tenacidade 0–8 (conforme espécie)
Pigmento (coloração) Identificação de uso 0,1–2,0

Dica técnica

  • O carbonato de cálcio cobrindo acima de 10 phr exige atenção à granulometria: partículas acima de 5 µm reduzem a resistência ao impacto do tubo acabado, especialmente em temperaturas abaixo de 10°C.
  • Tubos para água potável (NBR 5647) não podem usar pigmentos à base de metais pesados. TiO₂ anatase ou rutilo são os únicos branqueantes aceitos.

Etapa 2: extrusão: da fusão ao perfil contínuo

O dry-blend sai do misturador e é alimentado na extrusora por um dosador gravimétrico ou volumétrico. No caso de linhas com duplo parafuso contrarrotante, que são as mais usadas em equipamentos de extrusão para tubos plásticos de médio e grande porte, o pó passa por quatro a seis zonas de temperatura, que vão de 150°C na zona de alimentação até 175–195°C na região da cabeça (die head), dependendo da formulação.

O parafuso duplo contrarrotante funciona por transporte positivo: os dois fusos se engrenham de forma a forçar o material para frente sem escorregamento. Isso garante tempo de residência curto e uniforme, critico para o PVC porque o polímero começa a decompor acima de 200°C com liberação de HCl.

A cabeça de extrusão para tubos tem geometria anular, com um mandril central que forma o furo e uma matriz externa que define o diâmetro externo. O gap entre mandril e matriz deve corresponder à espessura de parede desejada, com compensação de saída (die swell): o PVC expande cerca de 5–15% ao deixar o die, e o operador precisa calibrar essa expansão ajustando a geometria ou a temperatura da cabeça.

Etapa 3: calibração e resfriamento

Logo após sair da matriz, o tubo ainda está plástico e sem dimensão definitiva. Ele passa imediatamente por um calibrador, que é um anel metálico com diâmetro exato e resfriamento a água. Existem dois sistemas de calibração: por pressão interna (ar comprimido empurra o tubo contra o calibrador) e por vácuo externo (uma câmara de vácuo suga o tubo contra a parede do calibrador).

O vácuo é o método dominante para tubos de PVC-U porque aplica pressão uniforme sem risco de colapso de parede. A pressão de vácuo típica varia entre -0,3 e -0,7 bar. A água de resfriamento circula no calibrador e em tanques subsequentes a 10–20°C. O comprimento total da zona de resfriamento varia com a velocidade de linha e o diâmetro: para um tubo DN 100 saindo a 3 m/min, são necessários pelo menos 6–8 metros de resfriamento antes do corte.

1

Mistura (dry-blend)

Resina + aditivos no misturador Henschel. Ciclo: aquecimento a 115°C, resfriamento a 40°C. Tempo típico: 8–12 minutos por batelada.

2

Alimentação e fusão

Pó entra na extrusora via dosador. Parafuso duplo transporta e funde o material em 150–195°C ao longo das zonas aquecidas.

3

Cabeça e die

Material fundido passa pela cabeça anular. O mandril forma o furo interno, a matriz define o diâmetro externo. Die swell de 5–15%.

4

Calibração a vácuo

Anel calibrador com vácuo de -0,3 a -0,7 bar fixa o diâmetro externo. Água a 10–20°C inicia o resfriamento da parede.

5

Tanques de resfriamento

6 a 10 metros de tanques com chuveiros de água fria. O tubo chega ao corte com temperatura de parede abaixo de 40°C.

6

Puxador e corte

Puxador de esteiras controla a velocidade de linha e portanto a espessura de parede. Serra planetária ou de disco corta nos comprimentos padronizados (3 ou 6 metros).

7

Bolsa e embalagem

Bolsadeira (socketing machine) forma a ponta cônica para conexão. Marcação a quente ou a jato grava norma, lote e data. Depois: embalagem e paletização.

Equipamentos necessários para uma linha de extrusão de tubos de PVC

Montar uma linha completa vai além de comprar uma extrusora de plástico. O conjunto de equipamentos forma o que se chama de downstream, e cada componente afeta a qualidade dimensional do tubo. Abaixo, os itens e suas funções.

Misturador de alta rotação

Prepara o dry-blend. Capacidade de 100 a 1.000 kg/h dependendo do modelo. O par misturador quente + frio é obrigatório para processo estável. Marcas comuns no Brasil: Papenmeier (alemã), CMX, Metalúrgica Lar.

Temperatura de mistura: 110–120°C

Extrusora duplo parafuso

Para tubos de PVC-U, o padrão industrial é o duplo parafuso contrarrotante com L/D de 22 a 28. Diâmetro do parafuso de 60 mm produz cerca de 200–350 kg/h de tubo de esgoto DN 100.

RPM típico: 15–40 rpm

Cabeça de extrusão (die head)

Cabeças de tête em croix (cruzeta) ou de fluxo espiral. As de fluxo espiral dão distribuição de parede mais uniforme, essencial para tubos de pressão acima de DN 63.

Pressão de processo: 100–250 bar

Calibrador a vácuo

O calibrador define o diâmetro externo definitivo. Para cada diâmetro nominal, é necessário um calibrador específico. Troca de série (ex: DN 75 para DN 100) exige desmontagem e ajuste da posição no tanque.

Vácuo: -0,3 a -0,7 bar

Tanques de resfriamento

Comprimento total de 6 a 12 metros para diâmetros de DN 50 a DN 160. Chiller de água industrial mantém a temperatura da água entre 10 e 18°C.

Consumo água: 30–80 L/min

Puxador de esteiras

Controla a velocidade de saída do tubo: principal variável para controle da espessura de parede. Velocidade variável de 0,5 a 8 m/min.

Tração: 3–15 kN

Serra de corte

Serra planetária (corte orbital) é preferida para diâmetros acima de DN 63 porque não gera rebarbas. Serras de disco simples são adequadas até DN 50.

Ciclo de corte: 3–8 seg

Bolsadeira (socketing)

Aquece a ponta do tubo e forma o encaixe (bolsa) por compressão com macho calibrado. Etapa ausente em tubos lisos para conexão de ponta e bolsa colada.

Temperatura de aquecimento: 90–120°C

Custo indicativo de uma linha compacta para tubos até DN 160

  • Misturador (par quente/frio 150L)R$ 80.000–120.000
  • Extrusora duplo parafuso Ø65mmR$ 250.000–450.000
  • Cabeça + calibrador + tanquesR$ 80.000–150.000
  • Puxador + serra + bolsadeiraR$ 60.000–100.000
  • Total (equipamento novo, nacional)R$ 470.000–820.000
  • Total (equipamento usado, revisado)R$ 150.000–300.000

Valores de referência 2025. Linhas de importação chinesa (KraussMaffei Berstorff equivalentes) chegam ao Brasil com 30–40% de desconto sobre marcas europeias.

Parâmetros críticos de processo e os defeitos mais comuns

A extrusão de PVC-U é uma operação estreita em termos de janela de processamento: a diferença entre temperatura de fusão adequada e temperatura de degradação é de apenas 20–30°C. Um operador experiente monitora pelo menos seis variáveis em tempo real.

Temperatura das zonas e da cabeça

O perfil de temperatura ao longo do cilindro não é linear. A zona de alimentação fica mais fria (150–160°C) para manter a aderência do pó ao parafuso. As zonas intermediárias sobem gradualmente. A cabeça fica na faixa de 175–195°C. Se a temperatura da cabeça estiver alta demais, o tubo sai com estrias longitudinais e pode apresentar pontos amarronzados (sinal de degradação inicial). Se estiver baixa, a superfície fica rugosa e a resistência mecânica cai.

Velocidade do parafuso x velocidade do puxador

A espessura de parede do tubo é controlada pela razão entre a velocidade de saída do material fundido e a velocidade de tração do puxador. Se o puxador acelerar sem aumentar a rotação do parafuso, a parede afina. Se desacelerar, a parede engrossa. Em linhas modernas, esse controle é automatizado por sistema de medição de espessura por ultrassom em linha (wallthickness gauges), que corrige a velocidade do puxador continuamente.

Vácuo e temperatura de calibração

Vácuo insuficiente deixa o diâmetro externo menor que o nominal. Vácuo excessivo pode criar marcas de sucção na superfície. A temperatura da água no calibrador afeta o estado de tensão interna do tubo: resfriamento muito rápido gera tensões residuais que podem causar fissuras durante a instalação, especialmente em condições de impacto ou temperatura negativa.

Atenção: defeitos que reprovam o tubo na inspeção NBR

  • Espessura de parede fora da tolerância (mínimo e máximo definidos por tabela da norma para cada PN e DN)
  • Ovalização acima do limite: diâmetro externo mínimo/máximo em uma mesma seção transversal não pode diferir mais de 1,5% para tubos de pressão
  • Estrias profundas (acima de 0,4 mm) na superfície interna ou externa
  • Coloração desuniforme ou pontos escuros: sinal de degradação localizada no processo
  • Bolha ou inclusão visível na parede do tubo

A NBR 5647 (água fria) e a NBR 5688 (esgoto predial) definem os ensaios mínimos: pressão hidrostática, resistência ao impacto, resistência à flexão transversal e retração térmica.


Normas técnicas para tubos de PVC fabricados no Brasil

A fabricação de tubos de PVC no Brasil é regulada pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). As normas determinam dimensões, tolerâncias, propriedades mecânicas e os ensaios de recebimento. Conhecer as normas é obrigatório para quem projeta a linha, pois os parâmetros de processo (temperatura, velocidade, formulação) derivam diretamente das especificações normativas.

Norma Aplicação Pressão nominal máxima DN coberto
NBR 5647 Tubos e conexões para sistemas prediais de água fria PN 6 a PN 20 DN 20 a DN 100
NBR 5688 Tubos e conexões para sistemas prediais de esgoto sanitário e ventilação – DN 40 a DN 150
NBR 7665 Tubos para sistemas de distribuição de água (grandes diâmetros) PN 4 a PN 12,5 DN 50 a DN 400
NBR 10351 Eletrodutos rígidos de PVC – DN 20 a DN 100
NBR 15561 Sistemas de irrigação por gotejamento PN 6 DN 16 a DN 32
NBR 16561 Tubos de PVC para instalações prediais de gás combustível PN 4 DN 20 a DN 50

O ensaio de pressão hidrostática (pressure test) é o mais determinante para tubos de pressão. O procedimento da NBR 5647, Seção 6.6, exige que o tubo suporte sem ruptura a pressão de 3 vezes a pressão nominal por 1 hora, e 2,5 vezes a pressão nominal por 100 horas. Esses valores correspondem ao ensaio de curta duração e ao ensaio de longa duração, respectivamente. Uma linha de produção mal regulada com espessura de parede abaixo do mínimo ou com tensões residuais elevadas, falha no ensaio de 100 horas mesmo aprovando no de 1 hora.

Guia de compra: o que avaliar antes de adquirir equipamentos para extrusão de tubos

A decisão de comprar uma linha para fabricar tubos de PVC envolve variáveis que vão além do preço da extrusora. Quem já operou linhas de terceiros sabe que a diferença entre uma linha bem especificada e uma mal especificada se paga (ou não se paga) nos primeiros 18 meses de operação.

Defina o mix de produtos antes de especificar o equipamento

Uma extrusora com parafuso de 65 mm e razão L/D 22 produz bem tubos de DN 50 a DN 160 para esgoto. O mesmo equipamento produz tubos de pressão PN 10 (parede mais espessa), mas com produtividade menor. Se o mix incluir tubos de DN 200 ou acima, é preciso uma cabeça maior e possivelmente um parafuso de 90 mm, com consumo de energia correspondentemente maior.

As extrusoras para fabricação de tubos plásticos de maior diâmetro geralmente trabalham com velocidade de linha mais baixa (0,5–1,5 m/min para DN 315) e exigem tanques de resfriamento mais longos. Isso aumenta o footprint da linha, um detalhe que muitos compradores subestimam ao planejar o layout do galpão.

Parafuso simples ou duplo

Se a intenção é processar dry-blend direto (sem granulação prévia), o duplo parafuso contrarrotante é praticamente obrigatório. A tentativa de processar pó de PVC numa extrusora de parafuso simples sem as modificações adequadas resulta em degradação do material, superfície rugosa e espessura irregular. O parafuso simples funciona bem apenas com composto granulado (pellets), o que adiciona uma etapa de processo e aumenta o custo de matéria-prima em 8–15%.

Especificações técnicas mínimas para checar antes de comprar

Checklist de compra

  • Relação L/D do parafuso: mínimo 22:1 para PVC-U. L/D abaixo de 20 compromete homogeneização
  • Material do cilindro: bimetálico (aço nitretado + liga resistente ao desgaste) essencial para PVC com cargas abrasivas
  • Sistema de aquecimento da cabeça: resistências de banda com controladores PID independentes por zona
  • Capacidade do calibrador a vácuo: compatível com a faixa de diâmetros pretendida
  • Comprimento do tanque de resfriamento: ao menos 6 m para DN 50–160; 10 m para DN 160–315
  • Disponibilidade de parafusos e peças de desgaste no Brasil (importação pode levar 90–180 dias)
  • Potência instalada total: inclua chiller, misturador e puxador no cálculo, uma linha completa para DN 50–160 consome 80–150 kW

Equipamentos novos versus usados

O mercado de extrusoras usadas para tubos de plástico no Brasil tem oferta razoável, principalmente de linhas completas desmontadas de fábricas que mudaram de mix ou encerraram atividades. Alguns pontos práticos para avaliar uma linha usada:

O cilindro e o parafuso são as peças de maior desgaste e maior custo de reposição. Antes de fechar negócio, peça autorização para medir o folga entre parafuso e cilindro: acima de 0,4 mm de folga radial, o desempenho cai visivelmente e a peça provavelmente precisará de recondicicionamento. Uma análise por ensaio de dye penetrant no cilindro pode revelar trincas não visíveis a olho nu, especialmente em linhas que processaram compostos abrasivos.

Os controles elétricos de linhas antigas (pré-2005) usam CLP de marcas descontinuadas, com reposição de peças difícil ou impossível. Nesse caso, é necessário precificar uma retrofitting de painéis no orçamento de compra, o que pode custar entre R$ 30.000 e R$ 80.000 dependendo do porte da linha.

Usos finais dos tubos de PVC e por que os diâmetros importam

O tubo de PVC é o produto de extrusão plástica de maior volume no Brasil. A Abiplast registrou em 2023 que tubos e conexões responderam por 28,4% do total de transformados plásticos no País em volume de material processado. A distribuição de uso é concentrada: construção civil responde por mais de 70% do consumo.

🏗️

Construção civil

Maior mercado, DN 20 a DN 150

Esgoto sanitário (NBR 5688), água fria (NBR 5647), eletrodutos (NBR 10351) e drenos pluviais. Tubos coloridos por convenção: branco para esgoto e água, cinza para eletroduto.

Linha típica: extrusora Ø65mm, produção de 200–350 kg/h, mix DN 40–160

💧

Saneamento e distribuição de água

DN 50 a DN 400, tubos de pressão

Redes de distribuição de água tratada. Norma NBR 7665. Pressões nominais de 4 a 12,5 kgf/cm². Requerem maior controle de espessura de parede e ensaio de 100 horas obrigatório.

Linha: extrusora Ø90mm ou maior, velocidade 0,5–2 m/min para DN 200+

🌱

Irrigação agrícola

DN 16 a DN 110, PVC-U e PVC-P

Tubos para linhas principais (PVC-U, pressão) e mangueiras de gotejamento (PVC-P, flexível). Mercado que cresce junto com o agronegócio irrigado no Centro-Oeste e MATOPIBA.

Linhas menores, mais ágeis para troca de ferramental entre diâmetros

⚡

Telecomunicações e energia

DN 32 a DN 100, eletrodutos corrugados

Eletrodutos corrugados para passagem de cabos de fibra óptica e energia. Produzidos em linhas com cabeças corrugadoras. PVC-U com adição de negro de fumo para resistência UV em eletrodutos externos.

Corrugadores acoplados à extrusora, equipamento auxiliar específico

Sustentabilidade e reciclagem na fabricação de tubos de PVC

O PVC gerou debate ambiental durante décadas, principalmente em torno dos plastificantes (ftalatos em sistemas flexíveis) e dos estabilizantes de chumbo. No segmento de tubos rígidos (PVC-U), os plastificantes não estão presentes, e os estabilizantes de chumbo foram substituídos por Ca/Zn nos fabricantes brasileiros que atendem exportação ou grandes redes de construção.

Na produção, o principal resíduo sólido é o refilado de ponta (produto fora de especificação gerado na partida da linha e nas trocas de ferramental). Esse material pode ser reprocessado na própria linha como PVC reciclado se a degradação térmica não foi significativa. O Vinyl Council da Europa documentou em 2022 que 771.000 toneladas de PVC foram recicladas no continente, sendo 58% proveniente de demolição de construções, mas no Brasil essa taxa ainda é muito inferior, sem dados consolidados disponíveis.

A adição de PVC reciclado pós-industrial (de aparas de própria produção) em tubos de esgoto é permitida pelas normas ABNT desde que seja incorporado apenas na camada intermediária de tubos de parede tripla (os chamados tubos “foam core” ou SN4/SN8 para coletor). Em tubos de parede sólida, o uso de reciclado é restrito ou vedado nas aplicações de pressão.

Tubos de parede estruturada: a fronteira técnica atual

  • Tubos de parede tripla (PVC-U externo + espuma de PVC central + PVC-U interno) permitem usar PVC reciclado na camada de espuma, mantendo a camada externa virgem para conformidade normativa
  • Tubos corrugados de parede dupla (PEAD ou PVC) para esgoto de grandes diâmetros (DN 200–1200) são produzidos em linhas corrugadoras específicas, com consumo de material 30–50% menor que tubo de parede sólida equivalente em rigidez
  • A adoção dessas tecnologias exige investimento em ferramental e ajuste de formulação, mas reduz o custo de resina por metro de tubo

Perguntas frequentes sobre a fabricação de tubos de PVC

Qual é a diferença entre tubo de PVC para água e para esgoto?

A diferença principal está na pressão de trabalho e nas dimensões de parede. O tubo para água (NBR 5647) é produzido com paredes mais espessas para suportar pressões de 6 a 20 kgf/cm², e a formulação segue restrições para contato com água potável (sem pigmentos à base de metais pesados). O tubo para esgoto (NBR 5688) trabalha sem pressão interna significativa (fluxo por gravidade), então a parede é mais fina e o controle dimensional é focado no diâmetro interno para garantir o escoamento. A cor branca é padrão para ambos no Brasil, enquanto o cinza é reservado para eletrodutos.

É possível fabricar tubos de PVC com parafuso simples?

É possível, mas requer processamento de pellets (composto granulado), não de dry-blend em pó. A granulação prévia adiciona custo e uma etapa de processamento termicamente agressiva ao material. Para linhas pequenas (produtividade abaixo de 80 kg/h), o parafuso simples com pellet é uma alternativa viável. Acima disso, o duplo parafuso contrarrotante é o caminho mais econômico considerando o ciclo de vida do equipamento.

Qual a velocidade de produção de uma linha para tubo DN 100?

Uma extrusora duplo parafuso de 65 mm produz um tubo DN 100 de esgoto (parede de 3,2 mm, NBR 5688) a 2–4 m/min, dependendo da formulação e do estado do equipamento. Em produtividade por peso, isso representa 150–280 kg/h. Linhas mais antigas ou com parafuso desgastado operam na metade desses valores.

O que é o “die swell” e como ele afeta a produção?

Die swell é a expansão do polímero fundido ao sair da matriz (die). Ocorre porque o material esteve sob tensão de cisalhamento dentro da matriz e tende a recuperar parte da deformação ao ser liberado. No PVC-U, essa expansão é de 5 a 15% dependendo da formulação e da temperatura. O operador precisa calibrar o ferramental levando em conta o die swell para que o tubo chegue ao calibrador com o diâmetro correto. Formulações com mais lubrificante externo tendem a ter menor die swell.

Quanto custa a resina PVC-S no Brasil hoje?

O preço da resina PVC-S varia com a cotação do etileno (derivado do petróleo e do etanol) e do cloro (derivado da eletrólise do sal marinho). Ao longo de 2024 e início de 2025, a resina PVC-S produzida domesticamente pela Braskem foi cotada entre R$ 4,80 e R$ 6,20 por kg (em sacos de 25 kg, condição CIF fábrica cliente SP). A variação é forte: em 2022, o mesmo produto chegou a R$ 9,00/kg por conta da alta do petróleo. Consulte sempre a Braskem ou os distribuidores regionais para preço atual, pois esse dado fica desatualizado rapidamente.

Preciso de alvará específico para fabricar tubos de PVC?

Além do alvará de funcionamento industrial padrão (CNPJ com CNAE adequado 2229-3/01 “Fabricação de artefatos de material plástico para uso na construção”), a produção de tubos para uso em água potável exige certificação de conformidade pelo INMETRO para os modelos cobertos pela NBR 5647. Essa certificação é feita por organismos credenciados (OCP) e exige ensaios periódicos em lote. Sem o selo INMETRO, o tubo não pode ser comercializado para sistemas de água potável no Brasil.

Compare equipamentos para extrusão de tubosExtrusoras de parafuso simples e duplo, linhas completas novas e usadas para tubos de PVC e outros plásticos.

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Marcelo Fraga

Marcelo Fraga

Engenheiro de materiais formado pela UFSC,tenho mais de 12 anos de experiência na indústria de transformação plástica, com foco em injetoras, extrusoras e sopradoras. Atuou em grandes fabricantes de embalagens e automotivas, e hoje compartilho aqui no blog do Galpão das Máquinas alguns conhecimentos sobre operação, manutenção e tendências tecnológicas para o setor plástico. Fico feliz em poder colaborar e aprender também.

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